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  Título
Fissuras na representação da sexualidade feminina: Desejo e Repressão
Autor
Virgínia Jangrossi
Resumo Expandido
No cinema hollywoodiano clássico, majoritariamente, enquanto os personagens masculinos eram responsáveis pelo desenvolvimento da trama, a figura da mulher era relegada ao prazer fetichista e/ou escopofílico. No entanto, na contemporaneidade, inclusive na cultura de massa, é possível identificar um número cada vez maior de narrativas que apresentam personagens femininas ativas. Com base nesta dicotomia de representações, como podemos analisar uma trama que possui duas mulheres bastante feminilizadas, que embora não deixem de gerar prazer visual – tanto para os personagens masculinos, quanto para os espectadores – também expressam os próprios desejos e agem em direção aos próprios impulsos sexuais? É possível pensar em uma sexualidade sem culpa para elas?

Partindo desses questionamentos, pretende-se realizar uma análise de Meredith Grey, protagonista do seriado Grey's Anatomy (Shonda Rhimes, 2005 - ) através do paralelo entre ela e outros dois personagens: Addison Montgomery e Derek Shepherd.

A escolha em relacionar esses três personagens se dá pelo fato de que a sexualidade e o desejo os colocaram em um triângulo amoroso que culminou em questões morais ambíguas, visto que, embora Derek seja casado com Addison, os espectadores idealizam o romance entre ele e Meredith. Porém, quais mecanismos narrativos possibilitaram aos espectadores a idealização deste romance?

Para responder a essas perguntas, será feita uma análise da representação destas mulheres à luz das teorias feministas de cinema (de Mulvey e Hansen). Além disso, pretende-se discutir como a construção do relacionamento com resquícios de traços sadomasoquistas entre os três personagens cria mecanismos que, ao julgar a liberdade sexual feminina como algo moralmente incorreto, eximem o personagem masculino da culpa quanto às próprias atitudes (ou ausência delas).

No âmbito visual pretende-se destacar a forma como a representação dessas mulheres está intrinsecamente atrelada à sexualidade delas. Meredith é apresentada como uma jovem meiga, porém, independente e sexualmente livre, semelhante a algumas das representações das flappers dos anos 1920. Em contrapartida, Addison aparece exibindo uma sexualidade exacerbada semelhante à das vamps. Embora esta sexualidade possa destruir os homens, há uma construção dialética de Addison, que a aproximará de uma representação mais semelhante à das the-good-bad-girls, que, possuem o sex appeal das vamps, mas revelam um coração generoso e bondade inata (MORIN,1989). A apresentação de ambas funciona como um preâmbulo de como a liberdade sexual dessas mulheres influenciará o relacionamento entre elas e Derek.

No aspecto narrativo, a falta de agência de Derek instiga a ação das personagens femininas. Enquanto Meredith o faz através de uma declaração de amor, Addison o faz por meio de um pedido sexual. Mesmo que por vieses distintos, as duas saem da posição de feminilidade passiva. No entanto, a atitude delas não instiga o desejo de Derek, que só o expressa quando as personagens aparecem fragilizadas de alguma forma, ou quando se tornam objetos de desejo de outros personagens masculinos. Embora a construção imagética apresente mulheres independentes, o polo masculino ainda exerce a função de preservar os valores da sociedade patriarcal, que julga e reprime as pulsões sexuais femininas. Enquanto Derek desvaloriza e pune Addison que, ao não controlar os impulsos sexuais, ameaçou a masculinidade dele, ele fetichiza Meredith, transformando-a na mulher ideal.

Para tentar equilibrar essa fissura, na maior parte do tempo, há um ímpeto de empoderamento feminino que pode ser percebido através dos diálogos e da relação de sororidade entre as mulheres, inclusive entre Meredith e Addison. Mesmo presas à estrutura patriarcal, a narrativa visa criar um ambiente mais acolhedor e menos crítico em relação ao comportamento delas, que será melhor desenvolvido no decorrer das temporadas.
Bibliografia

HANSEN, Miriam. Pleasure, ambivalence and identification: Valentino and the female spectatorship. In: GLEDHILL, Christine (Org.). Stardom. New York: Stein and Day, 1991, p.262-286.

MORIN, Edgar. Gênese e metamorfose das estrelas (1910-1960). In: MORIN, Edgar. As estrelas, mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 6-20.

MULVEY, Laura. Afterthoughts on ‘Visual Pleasure and Narrative Cinema’ inspired by King Vidor’s Duel in the Sun (1946). In: Visual and Other Pleasures. Londres. Language, Discourse, Society. Palgrave Macmillan, London, 1989. p. 29-38.

______. Cinema e sexualidade. In: XAVIER, Ismail (org). O cinema no século. Rio de Janeiro. Imago Ed., 1996. P.123-139.

______. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, Ismail (org). A experiência do cinema. Rio de Janeiro. Edições Graal/Embrafilmes, 1983, p.437-453.

SOMERVILLE, Kristine. Enemy of Men: The Vamps, Ice Princesses and Flappers of the Silent Screens. The Missouri Review, vol. 37, no. 2, 2014, p. 77.