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  Título
David Lynch (2016): documentário auto-retrato “intercinearte”
Autor
Denize Correa Araujo
Resumo Expandido
Este texto pretende enfocar a cena do documentário David Lynch: a vida de um artista (2016) que capta o momento em que o artista percebe a relação da imagem fixa com a imagem em movimento, momento este que ocasiona sua transição das artes visuais ao cinema: “a moving painting” são as palavras de Lynch no momento de sua descoberta. É o momento do “insight”, do novo olhar, do ritual de passagem de uma mídia a outra. É quando o próprio cinema se debruça sobre si mesmo para reconhecer seu elo com a arte, com a imagem fixa que também é sua. Considero três argumentos que permitem a chegada a este clímax: a possibilidade de um conceito de “intercinearte”, a concepção de tomar o filme como um “selfie-biopic” e a consideração de analisar a performance de Lynch como "persona" de si mesmo. Partindo da noção de documentário e enfocando a questão da subjetividade inerente a qualquer representação, os objetivos da investigação são: verificar elementos que possam dar respaldo ao conceito de “intercinearte”; validar um conceito de “selfie-biopic” que possa contemplar características de ambas as taxonomias, “selfie” no sentido de autobiografia e biopic como documentário biográfico destinado a homenagear personalidades; discutir a performance de Lynch e sua proximidade com a criação de uma persona capaz de conduzir o documentário com lembranças suas, de memória subjetiva. Apesar do filme ser dirigido por Jon Nguyen, Olivia Neergaard, o artista é o único personagem do elenco. A relação entre persona e performance é intrigante no filme em questão, considerando que não temos um ator em cena e sim o próprio objeto do documentário. Serão adotados como referencial bibliográfico os conceitos de “documentário performático” de Bill Nichols, de “memória subjetiva” de Beatriz Sarlo, de “intercinearte”, e finalmente o conceito de “auto-retrato” de Raymond Bellour. De acordo com Antonio Fatorelli, “as imagens estáticas... proporcionam um tempo de observação prolongado, oferecendo ao sujeito da percepção a oportunidade de empreender um percurso que pode variar entre a observação desinteressada e a mobilização imersiva, passando do olhar fortuito à atenção prolongada” (2012: 175). Nessa imersão perceptiva, Lynch teve o lampejo do movimento. Para maximizar a argumentação, acredito que o documentário é um hibrido e proponho o termo “intercinearte” como uma interação da arte com o cinema. Argumento também que o documentário pode ser denominado de “selfie-biopic” porque nos oferece o testemunho do homenageado. Sarlo nos provoca a refletir quando sugere que a memória é sempre subjetiva (2007:44), o que sucede quando Lynch nos conta sua trajetória. Ouso dizer que Lynch cria uma "persona" que perpassa por todas as suas memórias da infância e suas entrevistas, que pode corrobora com Nichols sobre documentários performáticos: “O que esses filmes compartilham é um desvio da ênfase que o documentário dá à representação realista do mundo histórico para licenças poéticas, estruturas narrativas menos convencionais e formas de representação mais subjetivas” (2010: 176). No caso do texto em questão, é a “persona” criada por Lynch quem nos informa sobre suas reflexões e suas aspirações, desde sua infância chamada por ele de idílica até seu desapontamento com seu pai, a figura mítica que desaprova sua escolha de vida. A subjetividade que perpassa pelos seus relatos e entrevistas é explícita, criando um auto-retrato. Raymond Bellour define: “ o auto-retrato se inclina ao analógico, ao metafórico, ao poético, muito mais do que à narrativa. Sua coerência se coloca em um sistema de lembranças, pensamentos, superimposições, correspondências. Assim, se configura no revelar da descontinuidade, da justaposição anacrônica, da montagem. Enquanto a autobiografia se limita à vida que é recontada, o auto-retrato se abre ilimitadamente” (1989:8-9). Independentemente de classificações, o documentário nos oferece a origem da interação cinema-arte que povoa o universo lynchiano.
Bibliografia

Araujo, Denize. Imagens-Memória das Ditaduras: factualidades e subjetividades. Revista Tríade; comunicação, cultura e mídia. Sorocaba, SP, v. 3, n. 5, jun. 2015, pp 20-40.

Avgitidou, Angeliki. “Performances of the self”. Digital Creativity, 2003, 14, 3, 131-8.

Bellour, Raymond. Eye for I: Vídeo self-Portraits. NY: Independent Curators Incorporated: 7-20.

Fatorelli, Antonio. Variações do tempo – mutações entre a imagem estática e a imagem- movimento, 2012. Canal do educador n. 44 http://fvcb.com.br/site/wp-content/ uploads/ 2012/05/Variacoes-do-tempo_Antonio-Fatorelli.pdf

Lebov, Alisa (ed.). The Cinema of me: the self and subjectivity in first person documentary. London and New York: Wallflower Press, 2012.

Metz, Christian. A Significação no Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1977

Nichols, Bill. Introdução ao documentário. 5ª. edição. Campinas: SP 2010.

Sarlo, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. SP: Cia das Letras, e BH/MG: Ed UFMG, 2007.