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  Título
Narrativas constelacionais: o cinema desmonstado de Allan Sekula
Autor
Fernando do Nascimento Gonçalves
Resumo Expandido
Allan Sekula talvez seja mais conhecido por seus escritos do que por suas imagens. Mas seus filmes e fotografias constituem, tanto quanto seus textos, uma importante investigação formal, estética e crítica sobre certas configurações do biopoder na atualidade. Formado em artes visuais nos anos 70 e influenciado pela arte conceitual e pelo pensamento marxista, seus primeiros trabalhos baseavam-se em materiais autobiográficos, com os quais articulava experiências pessoais contextos mais amplos para discutir exploração e poder nas relações de trabalho. A partir da metade dos anos 80, suas reflexões o levaram a uma investigação sobre os aspectos geopolíticos envolvendo o comércio marítimo global. É quando o mar passa a ser tomado por ele como um espaço simbólico e material onde se desenvolve uma extensa cadeia de produção e circulação de bens e pessoas e de práticas e discursos sociais, que ele então vai documentar e descrever através de filmes e fotografias documentais. Considerados como um exemplo da “virada etnográfica” nas artes nos anos 80, os trabalhos de Sekula são vistos por Foster como a produção de mapas de uma ordem global através do desenho de uma “geografia imaginária e material do mundo contemporâneo no capitalismo avançado” (FOSTER, 2014, p. 176). O que vai nos interessar aqui é discutir exatamente os modos como Sekula constrói esses mapas através de uma narrativa que articula de forma reticular e conectada fragmentos de textos, imagens e objetos de locais e tempos distintos. Seus “documentários performativos”, como o historiador de arte Steve Edwards (2015) os chamou, combinam distintos elementos para compor uma narrativa que associava a experiência de um lugar aos aspectos históricos, culturais, econômicos e políticos que a constituem, tornando visível o papel de tais aspectos na construção dessa experiência de lugar e de suas tensões. Em filmes como Lottery of the Sea, de 2006, e The Forgotten Space, de 2010, por exemplo, é possível observar o modo como lugares, pessoas, situações e objetos são documentados e combinados de modo dotar de espessura suas narrativas visuais. É nesse sentido talvez que o próprio Sekula considerasse seus trabalhos como um “cinema desmontado” (GELDER, 2009), conjunto de narrativas heterogêneas cujos pedaços ele espalhava e depois reunia conforme tratava das relações entre as leis marítimas de comércio internacional, os processos de produção de empresas “glocais” chinesas e seus impactos nos modos de vida de pessoas comuns que deles participam. A discussão que se pretende fazer em torno de suas narrativas parte do princípio de que, ao assumir o documento como algo ao mesmo tempo real e construído, Sekula criava, como tantos outros realizadores contemporâneos, arquivos visuais para, a partir deles, inventar outras possibilidades de enunciação do real. É possível aqui vincular tais operações ao que Warburg chamou de iconologia dos intervalos e ao que Didi-Huberman chamou de “montagem”: forma de construção do conhecimento que agrupa elementos aparentemente desconexos para fazer entrever relações subjacentes entre eles e criar uma imagem densa, de caráter alegórico, que só faz sentido quando vista na relação com outras imagens e de um determinado modo. Minha hipótese é que, em Sekula, as imagens parecem ao mesmo tempo narrativa e modo de narrar e são assumidas como formas visuais onde o político e o poético convergem e fabulam para contar criticamente suas histórias sobre espaço, capital e trabalho. É assim que esse trabalho feito com a imagem e a palavra em seus filmes, resulta em constelações visuais que espacializam e conectam os diferentes aspectos daquilo que documenta. Ao conectar diversos elementos para construir seus “documentários performativos”, o que Sekula faz é inventar um modo de representar as relações complexas e abstratas que constituem certos processos produtivos contemporâneos através de uma operação de desmontagem e remontagem de imagens, práticas e discursos sociais.
Bibliografia

BAETENS, J; GELDER, V.H. Critical realism in contemporary art: around Allan Sekula’s photography. 2nd ed. Leuven: Leuven University Press, 2010.

BUCHLOH, B. Allan Sekula: photography between discourse and document. In Allan Sekula: Fish Story. Catálogo de exposição. Düsseldorf: Richter Verlag, 2002.

DIDI-HUBERMAN, G. Quando as imagens tomam posição. Belo Horizonte: UFMG, 2017.

________________. Diante do tempo. Belo Horizonte: UFMG, 2015.

EDWARDS, S. Allan Sekula’s Chronotopes – In Ship of Fools/The Docker’s Museum (Edited by Hilde Van Helder. Leuven University Press, 2015.)

FOSTER, H. O retorno do real. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

GELDER, V.H. “Photography after modernism”, SIC, 3 (2009): 91-98.

MITCHELL, W.T (Org.). Landscape and power. Chicago e Londres: The Chicago University Press, 2002.

SEKULA, A. Dismantling Modernism, Reinventing Documentary (Notes on the Politics of Representation). In The Massachusetts Review. Vol. 19, No. 4, Photography (Winter, 1978), pp. 859-883.