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  Título
Mulheres difíceis nas séries policiais britânicas, o caso de The Fall
Autor
Maira Cinthya Nascimento Ezequiel
Resumo Expandido
Desde o clássico texto de Laura Mulvey, publicado em 1975, onde a autora identificava o modo de representação das mulheres na narrativa clássica hollywoodiana como um um reforço da objetificação e da submissão da mulher na sociedade, que, em sua análise, estava a serviço do prazer visual de uma audiência masculina e patriarcal, o papel das mulheres na ficção audiovisual nunca mais foi visto da mesma forma. Ao menos, não para pesquisadoras e críticas de inclinação feminista. De lá pra cá, muito já se escreveu sobre as formas de representar a mulher na mídia. Entretanto, ainda há uma demanda significativa por uma revisão histórica e estética da representação da mulher nas narrativas ficcionais televisivas, em que se contemple com justeza a complexidade da experiência de ser mulher em nossa sociedade. Neste sentido, chama particular atenção a narrativa em torno da protagonista da telesserie britânica The Fall (BBC2 / 2013-2016), atualmente disponível ao público brasileiro no serviço de streaming Netflix. A personagem principal, Stella Gibson, apresenta fortes características do que as autoras Mayka Castelano e Melina Meimaridis chamaram de "mulheres difíceis", aludindo a uma variação do conceito de anti-herói apresentado na obra "Difficult Men", de Brett Martin (2013). Como explicam as autoras, no artigo "Mulheres difíceis: a anti-heroína na ficção seriada televisiva americana" (2018), não se trata de “uma homenagem ao livro que aborda os anti-heróis da televisão americana, mas, sim, uma forma de ratificar a complexidade em se analisar as anti-heroínas presentes nas séries contemporâneas, tão recheadas de contradições”. Seguindo esta mesma perspectiva, o objetivo deste trabalho será identificar e analisar na protagonista da série em questão as características propostas pelas autoras no artigo, partindo da mesma metodologia de análise, para assim levantar a hipótese de que essa atualização do modo de representar protagonistas femininas, que ocupam espaços de poder e autoridade - como no caso em questao, onde a personagem ocupa a mais alta patente da força policial, parece engendrar uma tendência contemporânea das narrativas ficcionais televisivas europeias, e particularmente das produções britânicas - como a exemplo das séries Happy Valley, Collateral e Marcella – nas quais figuras femininas fortes e centrais à narrativa se apresentam com características complexas, ambíguas e parecem aderir a um discurso de clara - e, por vezes, declarada - inspiração feminista. O recorte se dá justamente por tratar-se de uma serie não-americana cuja narrativa coloca a mulher como personagem principal em um ambiente predominantemente masculino. Interessa-nos investigar de que modo o proprio fato da personagem ser mulher influencia, interfere e determina a construçao e o desenvolvimento da personagem. Ao discutir a construção da personagem feminina, tomaremos como ponto de partida a revisão crítica proposta inicialmente por Mulvey sobre o lugar da mulher na narrativa classica hollywoodiana, ate chegar nas reflexões atuais sobre lugar de fala (RIBEIRO, 2017), e sobre feminismo, representação, diversidade e multiplicidade nos estudos da midia televisiva (MULVEY, 2015).
Bibliografia

CASTELLANO, Mayka, MEIMARIDIS, Melina. “MULHERES DIFÍCEIS”: A anti-heroína na ficção

seriada televisiva americana. IN: Revista Famecos, Porto Alegre, v. 25, n. 1, janeiro, fevereiro, março e abril de 2018.

HOLANDA, Karla; TEDESCO, Marina Cavalcanti (orgs). Feminino e Plural: mulheres no cinema brasileiro. Campinas, SP: Papirus, 2017.

MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo. IN: XAVIER, Ismail. A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

________________, SEXTON, Jamie. Experimental British Television. New York: Manchester University Press, 2007.

________________; ROGERS, Anna Backman (orgs). Feminisms: Diversity, Difference and Multiplicity in Contemporary Film Cultures. Amsterdam: Amsterdam Univ. Press, 2015.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala. Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017.

SMITH, M. Engaging characters: Fiction, emotion, and the cinema. Oxford: Clarendon Press, 1995.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. São Paulo: Papirus, 2003.