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  Título
Ideais de Modernidade no Cinema Brasileiro de Ficção Científica
Autor
Maria Estela Silva Andrade
Resumo Expandido
Muitos foram os projetos políticos implementados pelos grupos que detiveram o controle institucional da nação nesses pouco mais de 500 anos desde o início da colonização europeia, porém, algo que resiste há séculos como um mantra nacional: a ideia de um país predestinado em ser a nação do futuro. A partir da década de 1950, com as políticas de industrialização dos governos federais de Vargas e Kubitscheck, esse pensamento ganhou impulso, tendo atingindo seu auge no século XX, durante o período da ditadura militar, para cair no ostracismo nas décadas de 1980 e 1990, e voltar à cena durante os anos de governo Lula e início da gestão Dilma Rousseff.

De acordo com Douglas Kellner (2001), os discursos políticos, assim como toda a cultura da mídia, contribuem para estabelecer a hegemonia de certos grupos e visões por meio das representações. Sob esta perspectiva, como partes constituintes do espectro midiático, produções cinematográficas de ficção científica se tornam interessantes objetos de análise, pois, segundo a estudiosa da ficção científica latino-americana, M. Elizabeth Ginway (2005), as ligações do gênero com as áreas de ciência e tecnologia o fazem o veículo ideal para a percepção do impacto cultural do processo de modernização do Brasil, e sua leitura como alegorias da modernização enriquece o entendimento tanto do gênero de ficção científica, quanto da própria experiência da modernidade.

A partir desta concepção, com base metodológica composta pela semiótica de Greimas juntamente a métodos de análise fílmica, o presente trabalho tem por objetivo identificar as representações do mito do “país do futuro” e os ideais de modernidade presentes em alguns filmes que compõem a cinematografia brasileira de ficção científica recente e analisar se há reflexos da retomada do discurso da “grande nação brasileira”, que tornou a ser propagado nesse mesmo período. Partimos de questões sobre como o Brasil é retratado nesses filmes de ficção científica; o que tais representações de sociedade e realidades alternativas nos dizem sobre o momento político vivido pelo país; se elas vocalizam algum descontentamento ou aprovação a algum projeto específico; quais as particularidades da ficção científica feita no Brasil e de que forma ela dialoga com a cultura local.

Após a realização de um levantamento da filmografia nacional do gênero a partir de 2003, elegemos quatro filmes para representar o panorama, sendo eles: “Nada Consta” (Santiago Dellape, 2007), “O Homem do Futuro” (Cláudio Torres, 2011), “Brasil S/A” (Marcelo Pedroso, 2014) e “Branco Sai, Preto Fica” (Adirley Queirós, 2015).
Bibliografia

BARROS, Diana L. P de. Teoria semiótica do texto. 4 ed. São Paulo: Parma, 2005.

FONSECA, Pedro C. D.; CUNHA, André Moreira; BICHARA, Julimar da Silva. O Brasil na Era Lula: retorno ao desenvolvimentismo? Nova Economia, v. 23, n. 2, p. 403-428, 2013.

GINWAY, M. Elizabeth. Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro. São Paulo: Devir Livraria, 2005.

JAMESON, Fredric. Achaeologies of the Future: the desire called utopia and other science fictions. Londres/Nova Iorque: Verso, 2005.

KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia. Bauru: EDUSC, 2001.

SUPPIA, Alfredo Luiz Paes de Oliveira. Atmosfera Rarefeita: a ficção científica no cinema brasileiro. 1 ed. São Paulo: Devir, 2013.

VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 5 ed. Tradução: Marina Appenzeller. Campinas: Papyrus, 2008.