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  Título
O pensamento cinematográfico de Alberto Cavalcanti
Autor
Tania Arrais de Campos
Resumo Expandido
Apresentar o pensamento cinematográfico de Alberto Cavalcanti é uma tarefa que requer uma compreensão ampla a respeito da trajetória do cineasta e de suas produções. A leitura de seu livro “Filme e Realidade” poderia servir como base de suas ideias sobre cinema por si só se, além de teorizar quanto as inovações técnicas do campo ou quanto as funções de cada técnico dentro de uma produção, ele não apontasse também para diversos movimentos, personalidades e produções diversas com os quais esteve relacionado. Somada a esta fonte e indicando também uma pluralidade de convívios no campo em questão com o qual contribuiu e onde sofreu influências, encontra-se o arquivo relativo às memórias de Cavalcanti, “One man and the cinema”, nunca publicado e arquivado na Cinemateca Brasileira.

Trata-se de um brasileiro que se fez diretor de cinema na França dos anos 1920, em meio a primeira vanguarda francesa, e produtor de cinema na Inglaterra dos anos 1930, entre os pioneiros documentaristas da escola britânica. Suas produções na Europa teriam marcado época em ambas as posições assumidas no campo, sem contar com a contribuição de Cavalcanti nos setores de arte e som em diversos filmes. O retorno ao Brasil decorre justamente do convite para que ministrasse uma série de conferências sobre cinema no MASP, demonstrando certo reconhecimento de Cavalcanti como uma figura estabelecida do cinema, o que levaria ainda a sua contratação como Produtor-Geral da recém criada Companhia Cinematográfica Vera Cruz, uma das maiores tentativas de industrialização do cinema no país. Logo, assim como o estudo de seus escritos, o panorama acerca de sua trajetória, suas motivações para percorrer ou desviar de um ou outro caminho, serviria como fonte para a tentativa de recompor o pensamento cinematográfico de Alberto Cavalcanti. Poderíamos recorrer antes de tudo aos filmes em busca de uma tendência norteadora de seu pensamento, contudo a multiplicidade de funções empregadas em cada produção e o deslocamento entre diferentes movimentos cinematográficos apontariam para uma filmografia bastante diversa do ponto de vista de uma análise formal. Com isso, a análise aqui proposta privilegiaria uma teorização a respeito dos modos de produção do cinema e sua organização, tema latente no pensamento cinematográfico de Cavalcanti, que atravessa toda a sua trajetória, em diferentes posições e lugares. O viés, no entanto, não excluiria as questões estéticas ou temáticas, uma vez que, de acordo com o cineasta, elas seriam intrínsecas às condições de produção do campo.

Por estar associado a movimentos cristalizados na história do cinema, como a primeira vanguarda francesa e o documentarismo inglês, ou ainda, por ter sua figura atrelada de forma simplificada ao trabalho na Vera Cruz e ao fracasso de tal indústria, o estudo a respeito do próprio Cavalcanti parece passar ao largo das possibilidades de análise diante de sua extensa filmografia e da farta contribuição no desenvolvimento do cinema e de sua linguagem. Este trabalho não tem pretensões de dar conta da totalidade da história de Cavalcanti no cinema, contudo pretende ao menos delinear o que seria o seu pensamento cinematográfico com base no que apresentamos acima, em busca de uma possível unidade diante de uma trajetória tão plural.
Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas, SP : Papirus, 1996.

CAVALCANTI, Alberto. Filme e realidade. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1957.

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DEMÉTRIO, Sílvio; MEDEIROS, Gutemberg. O mais estrangeiro de todos os brasileiros: Alberto Cavalcanti e sua jornada pelas vanguardas europeias, in Revista ECO-Pós. Rio de Janeiro, vol.19, n. 2, 2016.


GALVÃO. Maria Rita. Companhia Cinematográfica Vera Cruz: A fábrica de sonhos. Tese (Doutorado em Linguística e Línguas Orientais) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 1976.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP : Papirus, 2000.