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  Título
Surto&Deslumbramento: perversão estética e narrativa em filmes queer
Autor
Bernadette Lyra
Resumo Expandido
A partir dos anos 1980, a teoria queer, com seu princípio de recusa dos valores que traçam uma linha divisória entre o que é socialmente aceito e o que é relegado à abjeção, começa a ser considerada como instrumento de politização, aplicado a formas artísticas que se opõem àquelas que pretendem apontar as normas da representação de sexo e gênero a serem acatadas pelas sociedades. Nesse sentido, o cinema - que sempre foi um poderoso condutor dos princípios da heteronormatividade, no que diz respeito às regras da construção da imagens de corpos, atitudes e performances - inicia uma jornada de questionamentos e reflexões sobre a diversidade de gênero, a sexualidade e a variedade de experiências possíveis entre o fato de estar no mundo e sua mediação através do aparato cinematográfico. Abre-se, então, uma perspectiva de reconhecimento para filmes que tratam da multiplicidade sexual, tão visível nos dias de agora, e para a liberdade de escolhas dos indivíduos com respeito às próprias sexualidades. Com relação ao Brasil, ainda que se observe a existência de rejeição e preconceito a filmes com a temática queer relacionada ao corpo, à sexualidade e à diversidade de gêneros, ocorre que alguns desses filmes conseguem boa projeção nos aspectos de produção, exibição e distribuição comercial, como, por exemplo, Madame Satã (2002) de Karim Aïnouz; Tatuagem ( 2013) de Hilton Lacerda; Hoje eu quero voltar sozinho ( 2014), de Daniel Ribeiro. Outros nem conseguem tanto, mas circulam, cada vez mais, em mostras e festivais, como o precursor Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual (que tem início em São Paulo, em 1993); a Mostra New queer cinema – cinema, sexualidade e política (apresentado em 2015 e 2016, em Curitiba (PR), Fortaleza (CE) , Salvador (BA), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ); a Mostra Quatro Estações, parte do Festival de Cinema de Vitória, ES, e mais ainda. A par disso, observam-se núcleos alternativos, como os Coletivos, que se juntam no sentido de superar dificuldades financeiras e técnicas da produção e realização e fazem uso intenso da internet como plataforma para divulgação. Um desses coletivos é o Surto & Deslumbramento, com sede em Pernambuco, composto pelos cineastas André Antônio, Chico Lacerda, Fábio Ramalho, Rodrigo Almeida, já contando com intensa produção fílmica de curtas metragens como Mama (2012) direção André Antônio; Estudo em Vermelho (2013), direção Chico Lacerda); Casa Forte (2013), direção Rodrigo Almeida; Canto de outono ( 2014), direção André Antônio; Virgindade (2015), direção Chico Lacerda; Como era gostoso meu cafuçú (2015), direção Rodrigo de Almeida; Primavera ( 2017), direção Fábio Ramalho; e o longa A seita ( 2015), direção André Antônio. Os filmes produzidos pelo Surto & Deslumbramento são ostensivamente queer, em suas temáticas, oscilam parodicamente entre o real e o artifícial e fazem uso de estéticas que primam pela utilização do artifício, do camp, do exagero. Para demonstrar tais especificidades, analiso Virgindade, um curta sobre afetos e desejos infantis e juvenis, um misto de imaginário e documental, que perverte a estética e a narrativa, tanto no uso de imagens como de sons, e se ancora na memória, no kitsch, na pose, no humor, nos tableaux animados, nas fotos antigas e nas contraposições de movimento da câmera e da cidade que está sendo filmada, assim expondo e revelando o efêmero e a superficialidade, que habitam na totalização normativa da linguagem e do mundo, e questionando o binarismo em todas os seus formatos e formas.
Bibliografia

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