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  Título
A cultura pop na ambiência queer do filme Elvis & Madona
Autor
Gelson Santana
Resumo Expandido
Para Hans Ulrich Gumbrecht, hoje não existe uma obra, um texto, uma situação que não apresente seu ambiente próprio, aquele em que os princípios ativos que os compõe possam ser absorvidos de modo afetivo e corporal. Esse é o princípio da ambiência, fenômeno que deriva da experiência estética, não tem significação própria e navega ao sabor das contingências e das contingências estéticas despertadas e acumuladas por alguém, no momento em que interage com aquilo que as provoca. Em se tratando do cinema, essas experiências estéticas que criam uma ambiência, partilham, ao mesmo tempo, dos elementos materiais do corpo de um filme e do corpo dos seus espectadores. Assim é que as múltiplas variedades que se podem e se fazem nomear ao longo da história do cinema, oferecem uma materialidade capaz de suportar os mais diversos artefatos de afeto em reciprocidade aos afetos espectatoriais. Nesta comunicação, parto da existência de uma dessas variedades cinematográficas, o cinema queer, para observar como o uso da cultura pop nas imagens, nos sons e na narrativa do filme Elvis & Madona (2010), de Marcelo Laffitte, objetiva uma reapropriação afetiva da queerness, em sua ambiência. Tratado como uma comédia romântica transviada, por alguns críticos, Elvis & Madona particulariza a história de um casal que foge às regras daquilo que socialmente se convencionou chamar de “um casal normal”, uma vez que narra o relacionamento amoroso entre uma lésbica (Elvis [Simone Spoladore]) e uma travesti (Madona [Igor Cotrim]). Essa troca na construção social convencional não impede, porém, que a narrativa se desenrole como qualquer outra que trate do assunto, com encontros e desencontros tradicionalmente encenados nesse tipo de comédia romântica. Mas as marcas culturais do pop estão por todo o filme. A começar pelas personagens, que, em seu travestimento sexual, tomam o nome de ícones da cultura midiática: Elvis – uma clara referência a Elvis Presley – e Madonna – a musa da cultura pop. Também, os figurinos usadas pelo Elvis e pela Madona do filme, expressam os clichês que as narrativas midiáticas, repetidamente exploram. Elvis, a lésbica, é motoqueira entregadora de pizzas, usa botas, jeans, capacete, blusão de couro e quer viver como fotógrafa. Madona, a travesti, trabalha como cabeleireira no salão Divas, usa salto alto, roupas coloridas brilhantes e faz shows na noite. Ambos figurados dentro de um espírito comum facilmente identificável no mundo do espetáculo midiático. A relação do casal é marcada por narrativas já vistas e revistas, repisadas pelo imaginário de espectadores afeitos às histórias e aos acontecimentos mostrados em diferentes mídias massivas, como as telenovelas e os filmes hollywoodianos, dirigidos para o mercado e para o grande público. Com direito a pitadas de exploração da “mocinha, Madona, por um vilão insensível e interesseiro, e à bravura do “mocinho, Elvis, que se coloca em defesa da vítima a quem ama e tenta, de todas as possíveis maneiras, realizar-lhe os sonhos de ser a estrela em um espetáculo drag queen só dela. O filme atravessa os gêneros cinematográficos canônicos, vai de cenas melodramáticas de abandono, de sofrimento e de lágrimas até a comédia escrachada. Sem faltar, no meio do caminho da história, a exploração de Madona, chantageada pelo vilão e obrigada a fazer um filme pornô. Enfim, um déjà vu cultural de narrativas e de imagens, a que não falta o destravestimento dos protagonistas, presente na cena do noivado, em que Madona, em um gesto de amor, concede se vestir de homem para não ferir os brios morais da família classe média de Elvis, naquele momento com uma aparência mais feminina, anuncia para a família que está grávida. Assim, os elementos da cultura pop estão dispostos no filme como forma de deslizamento para uma ambiência queerness, conciliando as sexualidades trocadas, embaralhando-as de modo corriqueiro, como faria qualquer outro tipo de filme que tratasse de uma história de amor entre duas pessoas.
Bibliografia

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2014.

LAFFITTE, Marcelo. Marcelo Laffitte, o criador de Elvis & Madona. In: Revista Cultura.rj, http://www.cultura.rj.gov.br/artigos/marcelo-laffitte-o-criador-de-elvis-madona.

MÈMETEAU, Richard. Pop culture: réflexions sur les industries du rêve et l’invention des identités. Paris: La Découverte, 2014.

STEFFEN, Lufe. O cinema que ousa dizer seu nome. São Paulo: Giostri, 2016.