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  Título
Três estratégias do fotográfico no cinema
Autor
Annádia Leite Brito
Resumo Expandido
Propõe-se aqui a análise de três trabalhos contemporâneos em suas estratégias estéticas existentes entre a imagem estática e em movimento. Tomam-se como foco nesta investigação os curtas-metragens cearenses A festa e os cães (2015), de Leonardo Mouramateus; Monstro (2015), de Breno Baptista; e Flash Happy Society (2009), de Guto Parente. Todos eles contêm, de diferentes maneiras, o fotográfico (BELLOUR, 2008) como elemento principal de suas formas e diegeses.

A festa e os cães é um documentário realizado pouco tempo antes de Mouramateus se mudar de Fortaleza para Lisboa. Em planos estáticos, o realizador fala em voz off sobre a procedência das fotografias que começam a ser mostradas e empilhadas – a câmera analógica comprada e utilizada até quebrar e seu período de uso entre dezembro de 2013, durante a realização de um curta, e abril de 2014. O artista narra suas experiências quando da captura das fotografias, fala sobre a iminência de ir embora e conversa com outros três amigos, que aparecem nas imagens e também refletem sobre suas trajetórias de vida, incluindo partidas e chegadas, e projetando futuros possíveis e não realizados.

Monstro reúne fotografias analógicas digitalizadas por scanner e algumas imagens em vídeo de momentos de extrema intimidade entre o realizador e Gabriel Rett, seu ex-namorado. A fisicalidade dos corpos mostrados ganha maior dimensão ao ser somada à materialidade pressuposta por essas fotos analógicas em seu dispositivo inicial e aos resíduos de poeira ou pêlos sobrepostos à camada imagética durante a digitalização. A presença de Baptista é constante na voz off e como operador de câmera – aquela para o qual Rett olha, sorri e se masturba. Seu fluxo enunciativo permanece sempre sob a mesma entonação enquanto narra fatos, sonhos, sentimentos e delírios, estabelecendo sobre as imagens tomadas durante o relacionamento uma camada ficcionalizante.

Flash Happy Society acompanha os momentos anteriores ao início de um show. Foi realizado entre 2008 e 2009, quando as câmeras digitais amadoras eram bastante populares e ainda não haviam sido substituídas pelos telefones celulares. O olhar de Parente espreita de cima as pessoas, que se fotografam enquanto aguardam o começo do evento. No entanto, a velocidade das imagens não permanece fluida em sua duração como seria comum em um registro documental. A cada vez que um flash dispara, o tempo contínuo do vídeo é ralentado até a parada, voltando posteriormente ao movimento. Mesmo na impossibilidade de ver as imagens feitas por aquelas pessoas, a ação de fotografar incide sobre o tempo do filme e afeta diretamente seu espectador, permitindo que ele veja uma outra imagem estática.

O ato de fotografar é um marco que ao mesmo tempo une e separa esses trabalhos, estando Flash Happy Society situado anteriormente ao momento da tomada e até seu acontecimento e A festa e os cães e Monstro localizados do momento da tomada e fixação das imagens até sua visualização. Observam-se as tecnologias, quem as opera e os instantes de disparo sob pontos de vista diferentes. Todavia, todos trazem em si o indicial, ainda que seus processamentos fílmicos tenham sido realizados através de tecnologias digitais – vídeo digital, scanner, câmera DSLR e ilhas de edição em computadores –, operando um “mimetismo digital” (ROSEN, 2001).

Em todos os trabalhos analisados é possível identificar os elementos de imediação e hipermediação – mesmo que em gradações diferentes em cada um – contidos no processo de remediação da fotografia e do cinema (BOLTER; GRUSIN, 2000) e, junto à afirmação da permanência e da força do indicial, resta a constatação de que os curtas-metragens investigados utilizam o fotográfico multidimensionalmente como potencializador diegético, estético-formal e histórico, adensando essas obras ao inserir nelas reflexões sobre suas narrativas, suas estratégias visuais e sonoras e sobre cada uma como portadora da história das tecnologias produtoras de imagem que as antecederam.
Bibliografia

BELLOUR, Raymond. Concerning “the photographic”. In: BECKMAN, Karen; MA, Jean (Orgs.). Still moving: between cinema and photography. Durham, NC: Duke University Press, 2008.

__________. Entre-imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas, SP: Papirus, 1997.



BOLTER, Jay David; GRUSIN, Richard. Remediation: Understanding new media. Cambridge, MA: The MIT Press, 2000.



DUBOIS, Philippe. A imagem-memória ou a mise-en-film da fotografia no cinema autobiográfico moderno. Revista Laika, v. 1, n. 1, Jul. 2012. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2018.

_______________. Sobre o “efeito cinema” nas instalações contemporâneas de fotografia e vídeo. In: MACIEL, Katia(Org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contracapa Livraria, 2009.

_______________. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.



ROSEN, Philip. Change mummified: cinema, historicity, theory. Minneapolis, MN: University of Minnesota Press, 2001.