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  Título
A iconografia suja em O Jardim das Espumas: contribuições à videodança
Autor
Elisson Tiago Barros Amate
Resumo Expandido
“Imperfeito, pobre, sujo, independente nós fizemos O Jardim das Espumas. Deveria ser um vômito, um grito, um protesto e acabou sendo um filme”, declara Rosemberg em folheto de divulgação na Cinemateca do MAM em 1970. Segundo o cineasta carioca, os corpos dos atores e a história do filme se fundiriam numa imagem selvagem orquestrada pelo Cinema Independente. Sua crítica ao imperialismo foi personificada na imagem de um personagem que representa o progresso dos países ricos. Este, então desavisado, se depara com o cenário devastador dos trópicos: a ameaça de morte, a violência, a luxúria, a animalidade e o exílio. Depara-se com a sujeira.



O conflito com a selvageria dos corpos sujos em terras tropicais distópicas torna-se, assim, parte de um “laboratório total da arte de interpretar” (ROSEMBERG, 1970). O diretor explora na relação hibrida que estabelece entre os corpos violentos e as câmeras de seu filme outras experiências dramatúrgicas que não culminam na narratividade do cinema linear hegemônico. Influenciado por Jerzy Grotowski e suas concepções experimentais de teatro, Rosemberg vai buscar numa hibridez com as artes cênicas alguns estados corporais que desafiem os personagens enquanto instrumentos de agressão de si mesmos, deflorando as próprias personalidades naquilo que há de mais íntimo entre o ator e a história.



No caso de O Jardim das Espumas, esse universo íntimo e abismal do personagem se aproxima do que Félix Guattari chama de “ecologia do fantasma” (GUATTARI, 2001: 42), uma ambiência corporal que resgata o inconsciente e suas variações espirituais e em cuja subjetividade se esgotam quaisquer tentativas de coerção e censura. Seriam estes os corpos anti-higiênicos que se distanciam das limitações morais de um processo civilizatório eminentemente eurocentrado para dar lugar ao grotesco, à loucura e suas incoerências. Corpos imorais que materializam nas imagens uma reação ao espetáculo cênico hollywoodiano.



Em diferentes regimes imagéticos que coleciona, O Jardim das Espumas demonstra a identidade conflituosa e híbrida no cinema de Rosemberg Filho: suas colagens se coadunam a um cinema fragmentado, por vezes hermético, em imagens desconexas cujos sentidos se direcionam ao confronto com a mise-en-scène espetacular. “Os limites de seu cinema estão nos termos contraditórios de um conflito-construtivo com outras expressões artísticas” (ESTEVES, 2015: 53).



Sua proximidade com o maio francês de 1968 e o trabalho de Godard faz com que as reflexões de Rosemberg estejam inscritas na imagem pela insistência da palavra, como os enunciados que profere em cena: “Mostrar que um filme é mais do que um filme, não é uma simples história, e sim uma reflexão sobre a nossa história”. Entretanto, é na ausência da linguagem verbal que O jardim das espumas apresenta uma crítica determinante à relação entre corpo e imagem na cultura do espetáculo moderno. As iconografias sujas que surgem na execrável experiência dos trópicos: corpos que falam sem palavras, mas com ações.



Atores seminus se violentam enquanto divagam angustiados pela ausência de sentido. Gritos, choros, silêncios, alegorias sexuais. Imagens de abjeção. Ao analisar essas cenas não faladas do filme, oportunizam-se algumas provocações à relação corpo-câmera na contemporaneidade a fim de pensar como o hibridismo da videodança pode assumir iconografias sujas num contexto experimental, não limitado à forma cinema. “Para o cinema experimental o que interessa não é a impressão de realidade, ponto nodal do cinema de representação, mas a intensidade e a duração das imagens” (PARENTE, 2007: 20).



A sujeira dos corpos em O Jardim das Espumas problematiza formas higiênicas que, para a linguagem da videodança, foram adotadas a partir de uma perspectiva hegemônica do corpo em cena e de sua dançalidade (ROCHA, 2016). Como, então, o hibridismo em dança-cinema pode aproveitar os resíduos (MANTERO, 1998) de uma iconografia suja, organizando-se de forma crítica ao modelo de representação?
Bibliografia

CALDAS, Paulo (Org). Dança em foco: ensaios contemporâneos de videodança. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2012.



GUATTARI, Felix. As Três Ecologias. Campinas: Papirus, 2001.



DELEUZE, Gilles. O ato de criação. São Paulo: Folha de São Paulo, 1999.



DEREN, Maya. Cinematography: The Creative Use of Reality. In: SITNEY, P. Adams (ed.). The Avant-Garde Film: A Reader of Theory and Criticism. New York: Anthology Film A., 1978. p. 60-73.



ESTEVES, Leonardo. COELHO, Renato (Orgs.). Rosemberg 70: Cinema de Afeto. Rio de Janeiro: Caixa Cultural, 2015.



MANTERO, Vera. A desfazer-se. In: Elipse-Gazeta Improvável. Lisboa: Relógio d’água, Nº1, Primavera 1998, p. 3-4.



PARENTE, André. Cinema em trânsito: do dispositivo do cinema ao cinema do dispositivo. In: MARA, India (org.). Estéticas do Digital - Cinema e Tecnologia. Rio de Janeiro: LABCOM, 2007.



ROCHA, Thereza. O que é dança contemporânea? Uma aprendizagem e um livro de prazeres. Salvador, Conexões Criativas, 2016.