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  Título
O passo atrás de Lucrecia: disputas discursivas entre cinema e séries
Autor
Marcel Vieira Barreto Silva
Resumo Expandido
Na ocasião do lançamento de Zama (2018), seu mais recente filme, a diretora argentina Lucrecia Martel tornou-se capa dos cadernos de cultura com diversas entrevistas. Célebre por um estilo muito singular, Martel ganhou proeminência internacional já no lançamento de seu primeiro longa-metragem, O Pântano (La Ciénaga, 2001), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim. Desde então, ela se notabilizou por uma cinematografia pequena (apenas quatro longas-metragens), porém com grande circulação nos festivais internacionais e nos circuitos de cinema de arte.

No entanto, a despeito do esperado lançamento do seu filme, as entrevistas de Martel foram ilustradas com títulos que versavam sobre outro tema: as séries de televisão. Seu principal argumento, repetido em diferentes veículos, é de que as séries televisivas, tão proeminentes enquanto fenômeno sócio-histórico da contemporaneidade, com sua lógica de exibição doméstica, altamente serializada, de distribuição mundial, com a recomendação muitas vezes mediada por algoritmos e estimulada ao consumo excessivo, é um “passo atrás na linguagem audiovisual”. A despeito das ácidas gags que abundam nas entrevistas, as falas de Martel serviram para trazer novamente ao primeiro plano do debate audiovisual as disputas simbólicas entre cinema e televisão que, pelo menos desde o pós-Guerra, ilustram a complexa tensão cultural, econômica e política que atravessa o campo.

Para compreender a natureza discursiva deste debate, vamos discutir neste trabalho três eixos que alicerçam os argumentos historicamente mais utilizados para depreciar as séries televisivas no comparativo com o cinema: primeiramente, a experiência espectatorial, que contrapõe o cinema, com seu dispositivo de imersão ininterrupta do espectador dentro de uma arquitetura de sala que orienta o olhar e a atenção para o filme projetado, à televisão, com sua exibição em aparelhos domésticos, aberto às distrações extradiegéticas que promovem atenção não-exclusiva e cognitivamente dispersa.

Além disso, a forma narrativa, nosso segundo eixo argumentativo, é imbricada com as possibilidades de acesso à história permitidas ao espectador. Se o cinema pode prescindir de sobreposições entre imagem e diálogo, trabalhando com uma imersão mais sensória na narrativa, dentro de um dramaturgia unitária e ininterrupta, a televisão necessita, constantemente, chamar a atenção do espectador, interpela-lo para imergir na história e mesmo permitir que situações móveis de consumo multitela não representem suspensão do engajamento narrativo. Para garantir a manutenção do espectador com o programa, dentro de um dispositivo técnico de zapping ou sociabilização digital dispersiva, a televisão recorre ainda a formas narrativas seriadas, com ganchos, cliffhangers, múltiplas peripécias e jogos de cena. É aqui que a narrativa televisual se relaciona com um modelo de negócio particular.

Terceiro eixo argumentativo, por modelo de negócio entendemos as diferentes maneiras pelas quais a televisão e o cinema se organizam para permitir a estrutura de produção, distribuição e consumo dos seus produtos. Aqui, cinema e televisão muitas vezes se diferenciam, mas para logo em seguida se reencontrarem. Dentro de um cenário multitelar que demanda circulação das obras em diferentes janelas, a experiência cinematográfica da sala de exibição não restringe o cinema enquanto modo de produção de bens culturais, mas se estabelece como janela inicial de apreciação. Não bastasse isso, tanto os grandes estúdios, hoje fortalecidos em conglomerados midiáticos, quanto as produtoras independentes necessitam cada vez mais produzir também para a televisão, seja por causa de leis de cota de tela (com a lei 12.485/11, no Brasil) ou pela alta demanda de conteúdo dos diferentes exibidores, trazendo para o horizonte das disputas econômicas as tensões entre cinema e televisão no cenário contemporâneo.
Bibliografia

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SILVA, Marcel Vieira Barreto. Cultura das Séries: Forma, Contexto e Consumo de Ficção Seriada na Contemporaneidade. IN: Galáxia, São Paulo, v. 14, n. 27, p. 241-252, jun.

2014.