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  Título
ESCREVER COM A CÂMERA: AÇÃO CRIATIVA E POLÍTICA NO ENSINO TÉCNICO
Autor
Edvânea Maria da Silva
Resumo Expandido
O teórico Antonio Candido (1988), em um texto lúcido e provocativo, observa que pensar em direitos humanos tem um pressuposto: o que é indispensável para nós, também será para o próximo. Em sua crítica, Candido vai além do direito a certos bens fundamentais, citados tanto na nossa Constituição quanto na Declaração dos Direitos Humanos, e questiona se estendemos o direito à literatura, à música. Partindo da leitura do sociólogo francês (e padre dominicano) Louis-foseph Lebret, que atuou muito no Brasil entre os anos de 1940 e 1960, Candido vê aqueles direitos como bens incompressíveis (alimento, casa, roupa etc) e define os compressíveis como objetos supérfluos, a exemplo de enfeites.

A fronteira entre ambos, entretanto, é difícil de fixar, uma vez que “cada época e cada cultura fixam os critério de incompressibilidade que estão ligados à divisão da sociedade em classes, pois inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra” (CANDIDO, p. 173)

Reconhecer o direito aos bens materiais, à igualdade de tratamento, bem como à opinião, ao lazer, à arte e à literatura, ou seja, aos bens incompressíveis, são direitos humanos (CANDIDO, p. 173-174). Mario Vargas Llosa (2001), em “A literatura e a vida”, corrobora o pensamento de Candido ao defender a literatura “como uma atividade insubstituível para a formação do cidadão numa sociedade moderna e democrática, de indivíduos livres”.

Se a literatura confirma a humanização do indivíduo, com o cinema não é diferente. O texto fílmico, nesse sentido, é um instrumento político, uma vez que reconfigura “a partilha do sensível que define o comum de uma comunidade, em nela introduzir novos sujeitos e objetos” (RANCIÈRE, 2010, p.21).

Vale ressaltar que a partilha do sensível “faz ver quem pode tomar parte no comum [na comunidade] em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce” (RANCIÈRE, 2009, p. 16). Mas, tomar parte nesse comum pode não ser algo tão simples, uma vez que a “ocupação” do indivíduo pode definir se ele tem (in)competências para o comum, “ser ou não visível num espaço comum dotado de uma palavra comum” (RANCIÈRE, 2009, p. 16).

Entendemos que desconsiderar o quesito “ocupação”, ou melhor, apesar dele dotar de visibilidade e voz seres outrora excluídos do comum, é realizar um gesto político, é “reconfigurar a partilha do sensível” (RANCIÈRE, 2010, p.21).

Nesse sentido, a exemplo do que tem feito a Literatura, a Sétima Arte vem contribuindo para a reconfiguração dessa partilha. O texto artístico/fílmico é ação criativa, pois nos oferece uma percepção poética, ou seja, da imaginação” (PAZ, 2012, p. 243), da verdade das relações sociais na contemporaneidade. A verdade recriada por autores/escritores é “uma expressão genuína de sua experiência de mundo”, cujas imagens “nos dizem algo sobre o mundo e sobre nós mesmos e [ainda] que esse algo, embora pareça um disparate, nos revela o que somos de verdade” (PAZ, p. 113).

Esse processo imaginativo permite-nos uma visão, uma percepção do vir a ser do objeto em seus traços poéticos. O objetivo deste trabalho é, portanto, investigar como se dá a construção do curta-metragem “Overdrive, de Manuel Bandeira a Chico Science: a dicotomia da cidade que não para” (2017), produzido por alunos do Curso Técnico Integrado do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), a partir das discussões realizadas nas aulas de Literatura do segundo ano do Ensino Médio. O curta, fruto de entrevistas realizadas com cinco moradoras da capital pernambucana, traz diferentes percepções sobre essa “personagem”, revelando uma postura ativa/criativa/política dos realizadores na produção de um novo objeto artístico.
Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. O autor e a personagem na atividade estética. In: Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1920 -1924], p. 3-186.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ______. Vários escritos. São Paulo | Rio de janeiro: Duas Cidades, 1988, p. 169-191.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2 ed. Tradução: Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO experimental org.; Editora 34, 2009.

_____. A estética como política. In: DEVIRES – Cinema e Humanidades. UFMG - Faculda-de de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH), v. 7, n. 2, p. 14-37, 2010.

VARGAS LLOSA, Mario. A literatura e a vida. In: ______. A verdade das mentiras. Tradução: Cordelia Magalhães. São Paulo: Arx, 2004.