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  Título
O quarteto de filmes de Miriam Weinstein e o feminismo
Autor
Coraci Bartman Ruiz
Resumo Expandido
Teresa Di Lauretis avalia que nos anos 60 e 70 o conceito de gênero como diferença sexual “encontrava-se no centro da crítica da representação” (LAURETIS, 1994, p.206), e explica: “Com sua ênfase no sexual, a “diferença sexual” é antes de mais nada a diferença entre a mulher e o homem, o feminino e o masculino” (Ibidem, p.207). Ao propor que o gênero seja visto como fruto de um complexo processo de produção que se dá por meio de diferentes tecnologias, Lauretis aponta para as limitações que o conceito de diferença sexual impõe, sendo que a principal delas é confinar “o pensamento crítico feminista ao arcabouço conceitual de uma oposição universal do sexo (...), o que torna muito difícil, se não impossível, articular as diferenças entre mulheres" (Ibidem, p.207). Deste modo, Lauretis questiona o feminismo que não incorpora diferenças de raça e classe, acabando por reduzir-se a questões relacionadas à vida de mulheres brancas de classe média e alta.

Este também é um ponto importante nas análises de E. Ann Kaplan. A autora defende que a perspectiva ideológica de um filme é fundamental para sua análise, e divide os filmes feministas realistas da época em dois grandes campos ideológicos: um deles “exibia uma clara política ativista-esquerdizante”, enquanto o outro “revelava uma postura mais liberal burguesa” (KAPLAN, 1983, p.182).

O documentário autobiográfico herdeiro da tradição do cinema direto foi desenvolvido pelos cineastas de Cambridge sob influência do trabalho pioneiro de Ed Pincus. Miriam Weinstein, parte deste grupo, realizou quatro documentários autobiográficos de curta-metragem, em película: "My father the Doctor" (1972); "Living With Peter" (1973); "We Get Married Twice" (1973); e "Cal Me Mama" (1976). Scott MacDonald aponta que, neste grupo, houveram duas maneiras principais de conduzir as investigações autobiográficas: uma delas era filmar o confronto direto com os próprios familiares, de modo a entender o funcionamento das famílias e suas posições dentro delas; a outra era se voltar às gerações anteriores, com uso de material de arquivo, para rever como as famílias tradicionais funcionavam e como os membros mais velhos entendiam as mudanças em curso (MACDONALD, 2013, p.128).

Weinstein, em seu quarteto de filmes, navegou por estas duas vertentes ao mesmo tempo em que lançou mão de diferentes estratégias narrativas, como entrevistas, voz over, monólogos para a câmera, som direto, trilha sonora, etc, de modo que seus curtas demonstram a capacidade inventiva e a liberdade de experimentação estética com a qual formulou sua obra. Do ponto de vista ideológico, os filmes de Weinstein são vistos como feministas no sentido em que buscam mostrar e questionar os papéis sociais reservados às mulheres, dentro da premissa tantas vezes repetida de que “o pessoal é político”.

O desenvolvimento autobiográfico de Weinstein, abordando a relação com o pai, a instituição do casamento e a maternidade, passa pelas expectativas e frustrações geradas pela instituição familiar em diferentes pontos; seu foco desloca-se entre o pai, o marido e o filho, e o lugar da mulher, nos quatro casos, é tanto questionado quanto construído em oposição à estas figuras masculinas. Em alguns momentos a diretora busca revelar os papéis demarcados que privilegiam os homens, mas não se propõe a analisar as suas causas e tampouco insta a mulher a tentar libertar-se deles. Sua obra, em relação à experimentação no campo do realismo e suas convergências com a autobiografia foi bastante inovadora; em relação ao pensamento feminista, estava em consonância com a visão do gênero como “diferença sexual”, como descrito por Lauretis, e ideologicamente tendendo à postura liberal burguesa apontada por Kaplan.
Bibliografia

JOHNSTON, C. Women’s Cinema as a Counter Cinema. In: JOHNSTON, C. (ed.). Notes on Women's Cinema. London: Society for Education in Film and Television, 1973.

KAPLAN, A. E. A mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

______. Theories of the Feminist Documentary. In: Rosenthal, A. (org). New Challenges for Documentary. Berckley: ‪University of California Press‬, 1988.

LAURETIS, T. A tecnologia de gênero. In: HOLANDA, H. B. Tendências e impasses: o feminismo como crítica cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

MACDONALD, Scott. American ethnographic film and personal documentary: the Cambridge turn. Berckley: University of California Press, 2013.

WALDMAN, D. and WALKER, J. (orgs). Feminism and Documentary. London: University of Minnesota Press, 1999.