Voltar para a lista
 
  Título
A "Salomé" de Oscar Wilde e o (in)consciente criativo de Al Pacino
Autor
Alex Beigui de Paiva Cavalcante
Resumo Expandido
Assumir a peça Salomé como modo de investigação criativa, dentro desse contexto de produção fílmica, revela um duplo olhar onde a figura do autor, do diretor e do ator encontra um modo de ser e de fazer que rompe com a hierarquia autoral da obra, tão cara e acirrada no início do século XX, período em que os encenadores reivindicaram com sucesso parte da assinatura do drama levado à cena. Al Paccino dirige e atua, manipulando o texto teatral e estabelecendo com ele uma relação complexa, qual seja, o modo de dialogar sem hierarquizar, de misturar sem perder as regras do jogo textual (literário) , do jogo cênico (teatral) e do jogo fílmico. O material organizado por Al Pacino está dividido em dois DVD’s: no primeiro consta o filme propriamente dito, a ficção; no segundo, o documentário sobre o processo que conduziu o diretor, as suas escolhas estéticas. Apontaremos aqui, sempre que possível, os elos que ligam o documentário à ficção. Antes, contudo, é importante lembrar que a peça de Wilde já é uma tradução, espécie de mitema do mito bíblico, fonte de inspiração do dramaturgo. As paisagens bíblicas invadem a estrutura dialógica do texto, criando com ele uma atmosfera (regime noturno das imagens) no sentido de Gilbert Durand (1989), onde o feminino se desdobra em signos, voltados para uma "mise en abyme", entre elas dastacam-se: a lua, a prisão, o sangue, a morte, o feminino selvagem, entre outros. Ainda dentro do universo feminino, algumas frases destacam-se como forma de expressões, entre elas, “filha do adultério", “o filho do homem”, “salve uma vida", expressões que auxiliam a compor a centralização do desejo, da sexualidade e da morte na figura de Salomé-Wilde e na interdição do desejo (sexual) na figura de Okanaan. Contudo, tais imagens e expressões no conjunto da obra proposta por Al Paccino não são suficientes para definir a proposta do diretor. Trata-se apenas de pistas, um tanto quanto óbvias e já fornecidas em larga escala pelo texto bíblico e pelo texto dramático. São os aspectos formais e de composição criativa que nos leva a entender o que apontamos como “reescrita de si" no filme de Al Pacino. Nesse contexto, é importante diferenciar adaptação de apropriação não apenas como forma de substituição/atualização de um nomenclatura por outra, mas, sobretudo, porque trata-se de modos distintos de agenciamento sobre o texto. As linguagens artísticas se retroalimentam em um permanente sistema apropriativo que devora e atravessa todas as áreas artísticas, a saber: as artes cênicas (teatro, dança, performance); as artes visuais (cinema e áudio visual), incluindo também aqui a área das artes plásticas desde as pinturas de Antígona em vasos gregos, passando pela "Fúria de Medeia" de Eugène Delacroix até a "Monalisa" de Duchamp. Sem esquecer as esculturas, instalações e reperformances dos mitos que migram de uma linguagem à outra. Uma grande máquina estética, produtora de formas e de sentidos, bem como de objetos que negam a própria forma e o sentido do referente. Nessa linha investigativa, há uma vasta bibliografia, tanto teórica quanto crítica que ao longo do século XIX e do século XX e, sobretudo, a partir dos estudos comparativos, lançam olhares sobre as formas migratórias. Aliás, toda a discussão que envolve a passagem da modernidade para a pós-modernidade pode ser resumida na problemática e tensão advindas da ruptura parcial ou total com o original. No filme em questão, objeto de leitura crítica, o espectador duplica-se uma vez que assiste a desmontagem da peça, seus procedimentos e estratégias de funcionamento. A duplicação da linguagem teatral/fílmica ocorre paralelamente à duplicação do espaço palco plateia, levando à impossibilidade de precisar nitidamente as fronteiras e os limites das obras.
Bibliografia

ADORNO, T. W. Notas de Literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2003.

CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea: uma introdução. Trad. Rejane Janowitzer São Paulo: Martins Fontes, 2005.

CORRIGAN, TIMOTHY. O filme-ensaio: desde Montaigne e depois de Marker. Trad. Luís Carlos Borges. Campinas-SP: Papirus, 2015.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. Trad. Hélder Godinho. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

SALOMÉ & WILDE SALOMÈ. Dir. All Pacino. Produção Barry Navidi & Robert Fox. Special Box Set Edition. 81 min. USA, 2013.