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  Título
Transferências culturais dos cinemas latino-americanos dos anos 1968
Autor
Ignacio Del Valle Dávila
Resumo Expandido
O objetivo desta apresentação é propor uma reflexão sobre as potencialidades metodológicas do estudo histórico das transferências e circulações culturais entre os cinemas latino-americanos de do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970. Em meio à rememoração dos cinquenta anos do “momento 1968”, pretende-se estudar esse período nos cinemas latino-americanos a partir de uma dimensão transnacional e de uma perspectiva de longa duração. Nesse sentido, propomos um olhar para “os anos 1968” que conceba esse “marco” em uma escala temporal e geográfica que não se limita ao famoso Maio francês nem ao ano calendário, mas que abranja também os processos políticos e culturais imediatamente anteriores e posteriores a 1968, dos quais o cinema foi uma das principais manifestações artísticas e comunicacionais (FRANK, 2000).

Desde a publicação dos primeiros livros na América Latina sobre a história dos nossos cinemas, no final dos anos 1950, a pesquisa historiográfica vernácula privilegiou o estudo da esfera nacional, enfatizando os vínculos entre os cinemas vernáculos e a identidade nacional, inclusive para pensar momentos de forte circulação e intercâmbio cultural, como os anos 1968. Em uma proporção menor, existem também, a partir dos anos 1980, estudos que adotam uma perspectiva comparativa para analisar como um fenômeno se manifesta em distintos espaços nacionais. Porém, a publicação de trabalhos comparativos sobre os cinemas latino-americanos foram muito mais frequentes na Europa e nos Estados Unidos do que na América Latina, pois nesses outros espaços geográficos e culturais existe uma tendência a considerar este subcontinente na sua globalidade. Somente nos últimos dez anos, em países como Brasil e Argentina, esta aproximação metodológica foi valorizada de modo mais frequente na hora de pesquisar os cinemas políticos latino-americanos dos anos 1968. Uma mostra desse relativo peso que vem ganhando o comparatismo é precisamente o seminário da Socine no qual se inscreve esta proposta.

Sem pretender abrir mão das vantagens metodológicas de uma aproximação comparativa, proponho complementá-la com um estudo não apenas das semelhanças e diferenças entre casos distintos – proposta do comparatismo clássico –, mas também das suas conexões. A historiografia dos cinemas latino-americanos dos anos 1968 se enriqueceria se fosse adotada uma perspectiva que analisasse as transferências “entre” as fronteiras (ESPAGNE, 2013), ou seja, um estudo em detalhe dos fenômenos, objetos e agentes que circularam entre espaços nacionais, e dos processos de negociação de sentidos que surgem dessas trocas. Essas transferências trazem consigo processos de re-semantização, re-significação, tradução de debates teóricos, práticas estéticas e posicionamentos políticos, discutidos em espaços de socialização transnacional (como festivais ou revistas especializadas), mas que foram, ao mesmo tempo, adaptados às particularidades dos diversos contextos nacionais.

Longe de ignorar a identidade nacional, tais debates integram preocupação com esse debate a um espaço de intercâmbios transnacionais. O estudo desses intercâmbios não significa apagar as diferenças entre dois ou mais espaços separados, mas potencializar a análise das trocas, das negociações, das tensões e, dependendo dos casos, dos conflitos subjacentes à circulação. Dessa maneira, fenômenos característicos dos cinemas políticos e militantes dos anos 1968, que apareciam inicialmente como próprios de uma cinematografia específica – como, por exemplo, a crítica à noção de autor cinematográfico ou a defesa do filme como obra aberta – se revelam problemáticas transnacionais que formam parte de uma discussão global sobre o cinema. Assim, o estudo das transferências possibilita novas perspectivas de se acercar dos cinemas latino-americanos sem, por isso, esquecer as particularidades de cada contexto nacional ou regional.
Bibliografia

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AVELLAR, J. C. A ponte clandestina, teorias de cinema na América Latina. São Paulo: Editora 34, 1995.

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