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  Título
Um país operário: a recepção crítica de Arábia
Autor
Eduardo Paschoal de Sousa
Resumo Expandido
Uma obra não é, por si só, política, ainda que construa seu tecido narrativo com esse intuito, em uma visada social, no caso de um determinado cinema que se propõe crítico. Para Rancière (2012, p. 147), um filme só toma essa dimensão quando cria modos de representação que deixem evidentes as situações como efeitos de certas causas e como produtoras de “formas de consciência e de afetos que a[s] modifiquem”. Esquenazi (2011, p. 203) sintetiza a necessidade de uma leitura coletiva de produtos culturais para que algumas obras ganhem uma dimensão política, capaz de questionar ou aprofundar as representações frente ao que o autor classifica como comunidade de interpretação.

Há filmes, no cinema brasileiro recente, que parecem suscitar com mais afinco uma acepção política em suas narrativas, mobilizadas por seu contexto de recepção. Um desses casos é o longa Arábia (Affonso Uchoa e João Dumans, 2017), que narra as memórias de um jovem operário de uma fábrica de alumínio em Minas Gerais e seus percursos de vida. Retrato de um homem comum, com seus dilemas, sonhos, frustrações e relações afetivas.

A partir da temática social e política presente nesse filme, pensamos ser um caminho possível indagar como ela se confirma ou não nas análises críticas. Para isso, selecionamos textos de dez críticos sobre a obra: Marcelo Hessel (Omelete), André Miranda (O Globo), Matheus Pichonelli (Carta Capital), Marcelo Müller (Papo de Cinema), Inácio Araujo (Folha de S.Paulo), Giovanni Rizzo (Observatório do Cinema), Paulo Camargo (A Escotilha), José Geraldo Couto (Blog do IMS), Fabiane Secches (Revista Cult) e Raul Arthuso (Cinética).

Esta pesquisa buscou encontrar recorrências temáticas nessas críticas, ao levantar palavras presentes nas análises e relevantes para compreender como os críticos ponderaram sobre os aspectos do longa. Os termos mais encontrados – descartando-se aqueles corriqueiros, como cinema, narrativa, filme e roteiro – dão indícios de que há um direcionamento ao político e ao social, mas por meio da tematização do trabalho e do nacional: as palavras trabalho e seus correlatos (operário, operariado, trabalhador e trabalhadores) aparecem em 38% das vezes entre as palavras com mais de 3 recorrências nas críticas. Já Brasil (também como brasileiro, brasileira, país e nacional) está em 31% desses destaques. O restante dos termos aparecem em menor quantidade, mas ainda significativa: o grupo de político (também política e politicamente) está em uma frequência de 10%; social e sociedade em 6% dos casos; e classe (quando não associada a “classe trabalhadora” ou “classe operária”) em 3%. Dois conjuntos, que não estão diretamente ligados à acepção política (ainda que tenham uma conexão temática), também apareceram com certa frequência: afeto e afetos em 6%, memória em 5%.

A partir desses dados, pretende-se desenvolver a relação entre operariado e uma ideia de nação presente no filme, na representação da intimidade de um trabalhador, o que poderia representar uma ampliação da partilha do sensível (Rancière, 2009), mas também uma forma de provocar dissensos (Rancière, 2017) e alterar as políticas de representação dos indivíduos e do operariado, de uma maneira mais ampla, no contexto político brasileiro contemporâneo. Para isso, pretende-se retornar às críticas e buscar compreender, de forma qualitativa, como os críticos abordam a correlação entre político, social, operário e nacional, a partir de suas considerações sobre o filme – e versam mais sobre o contexto e a narrativa que propriamente sobre a forma, conforme constatamos preliminarmente.

Em síntese, a primeira parte deste texto faz uma discussão entre obra e política; a segunda analisa a conexão entre as palavras mais recorrentes em dez críticas ao filme Arábia e a maneira como essas relações são expostas pelos críticos; e a terceira e última, em uma tentativa de conclusão, analisa como essas ideias estão ligadas a um conceito de nação e de operariado, que se constrói também no longa.
Bibliografia

BERNARDET, J. C. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

ESQUENAZI, J. P. Sociologie des oeuvres: de la production à l’interprétation. Paris: Armand Colin, 2007.

_________. Quand un produit culturel industriel est-il une "oeuvre politique"?. Réseaux. Paris, vol. 3, n. 167, p. 189-208, 2011.

ISER, W. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34, 1996.

JAUSS, H. R. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994.

RANCIÈRE, J. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2009.

_________. As distâncias do cinema. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

_________. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

SOULEZ, G. Quand le film nous parle: rhétorique, cinéma et télévision. Paris: PUF, 2011.

_________. La délibération des images. Vers une nouvelle pragmatique du cinéma et de l’audiovisuel. Communication & langages, p. 3-32, 2013.