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  Título
Pane no sistema: o pós-humano em “2001: uma odisseia no espaço”
Autor
Fabio Camarneiro
Resumo Expandido
Durante as décadas de 1940 e 1950, a produção ligada ao cinema de ficção científica estava associada a filmes de baixo orçamento que alimentavam o imaginário de medo em relação à “ameaça vermelha” (comunista) e contrapunham valores estadunidenses (capitalistas), aqui representando o total da humanidade aos alienígenas, seres “desviantes” desses mesmos valores. Mas o lançamento de “2001: uma odisseia no espaço” (Stanley Kubrick, 1968) marcou um momento de inflexão no cinema de ficção científica. A partir do filme de Kubrick, a ficção científica passa a ser reconhecida não como um subgênero sem interesse artístico, mas dentro dos rótulos do cinema autoral ou “de arte”.

Kubrick abre seu filme com “Also sprach Zarathustra”, composição de Richard Strauss baseada no livro de Friedrich Nietzsche. Nesta peça, Strauss apresenta o conceito do “Übermensch” em termos musicais, sendo que cada oitava representaria uma nova “etapa” na evolução humana. O filme utiliza uma estrutura similar e apresenta dois momentos evolutivos ligados ao monólito negro: na primeira sequência, intitulada “The Dawn of Man” (“A aurora do homem”), um símio aprende a usar um osso como arma e, com isso, acaba matando outro de sua espécie. (E, assim como na lenda bíblica de Caim e Abel, em “2001” é um mito de assassinato que funda a civilização humana.) O segundo momento acontece ao final do filme, quando o astronauta Bowman, após seu leito de morte, “renasce” como um feto estelar, chamado “Starchild” (“Filho das estrelas”). (BENSON) O filme se encerra com os olhos dessa nota etapa do desenvolvimento humano a encarar os espectadores, enquanto a música de Strauss atinge seu acorde derradeiro. Assim, com a ajuda do conceito de “Übermensch”, podemos compreender o filme de Kubrick como uma narrativa dos grandes ciclos históricos que envolvem uma superação da própria condição humana.

O filme de Kubrick parece antecipar a “sociedade de controle”, segundo a expressão de Gilles Deleuze: “É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina, não porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las.” (DELEUZE, 1992: 223) Nesse sentido, outro elemento-chave para se compreender “2001: uma odisseia no espaço” é o computador HAL 9000. Duplo instrumento de controle, que comanda a espaçonave e vigia os astronautas, HAL é também ele um híbrido: uma máquina de inteligência artificial que “aprende” com os humanos. Ao repetir o símio pré-histórico, mata um dos astronautas e assim “refunda” uma civilização, em que homens e máquinas tendem a se fundir.

De 1968 para cá, cresce, em diversas áreas, o número de pesquisas dedicadas a entender como as cada vez mais onipresentes ferramentas tecnológicas alterariam nossos processos de subjetivação e criariam novos corpos. N. Katherine Hayles, ao se deter nas representações desses corpos na cibernética e na literatura, afirma que “o sujeito pós-humano é um amálgama, uma coleção de componentes heterogêneos, uma entidade material e informacional cujos limites passam continuamente por construções e reconstruções”. (HAYLES, 1999: 4) Já Donna J. Haraway, em seu “Manifesto ciborgue”, de cunho marcadamente feminista, defende que: “O ciborgue é uma matéria de ficção e também de experiência vivida — uma experiência que muda aquilo que conta como experiência feminina no final do século XX. Trata-se de uma luta de vida e morte, mas a fronteira entre a ficção científica e a realidade social é uma ilusão ótica.” (HARAWAY, 2009: 36)

Nesse sentido, talvez “Starchild” não seja apenas uma nova etapa na evolução do astronauta Bowman, conforme a teoria de Nietzsche. Trata-se de um novo ser, uma entidade “desviante”, que amalgama que supera os binarismos entre o ser humano e a máquina, nascido tanto da morte de Bowman quanto do desligamento de HAL.
Bibliografia

BENSON Michael. 2001: uma odisseia no espaço – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a criação de uma obra-prima. São Paulo: Todavia, 2018.

DELEUZE, Gilles. “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Conversações, 1972-1990. São Paulo: Editora 34, 1992. pp. 219-226.

HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. tradução e organização: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

HAYLES, N. Katherine. How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature, and Informatics. Chicago; London: University of Chicago Press, 1999.

LABAKI, Amir. 2001: uma odisseia no espaço. São Paulo: Publifolha, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SIBILIA, Paula. O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006. (Conexões; 17)