Voltar para a lista
 
  Título
A força dos fracos é seu tempo lento: notas de um processo de trabalho
Autor
Alexandre Brasil de Matos Guedes
Resumo Expandido
Faço um doutorado na linha de poéticas da criação musical, na UFRJ, onde desenvolvo uma tese sobre os elementos sonoros do audiovisual a partir de trabalhos em vídeo que crio no âmbito acadêmico. Estes vídeos tem um dispositivo simples: filmo trajetos em transporte público, com a câmera de um smarthphone, que depois são editados e sonorizados de forma a produzir trabalhos fechados, obras audiovisuais, pensadas para circular problematicamente entre os campos da música, da videoarte e do cinema.



Para esta apresentação, trarei uma composição ainda em processo, chamada A força dos fracos é seu tempo lento. A frase é do geógrafo Milton Santos e dá nome a um capítulo do livro Técnica, espaço, tempo, onde o autor desenvolve algumas reflexões interessantes sobre o tema da metrópole. Usando trechos selecionados e editados de duas entrevistas de Santos, concedidas aos programas Diálogos Impertinentes (1995) e Roda Viva (1997), procurei extrair frases que fossem capazes de, por um lado, resumir algumas das ideias e posições do geógrafo e, por outro, ler as imagens que montei. Com este trabalho pretendo endereçar diretamente uma questão, surgida logo no princípio de minha pesquisa de doutorado, que diz respeito ao poder da fala de comprometer profundamente outros regimes de audibilidades e visibilidades.

O objetivo da apresentação será discutir um pouco o ponto de partida – montagem de um vídeo a partir de registros sonoros- e suas consequências, bem como cotejar as escolhas tomadas para essa montagem com alguns estudos e teorias em voga na academia. Em primeiro lugar gostaria de propor algumas reflexões sobre a teoria do vococentrismo no cinema, de Michel Chion, bem como seus conceitos de contrato audiovisual e síncrese. Acredito que, ao menos no contexto do que se costuma chamar de cinema expandido (e certamente para o âmbito da videoarte) suas postulações poderiam se beneficiar de uma revisão. A seguir, procurarei aproximar os estudos sobre voice-over de Sara Kozloff (Invisible storytellers) especialmente a oposição detectada entre imagens e palavras e entre showing e telling, às reflexões de Vilém Flusser que o levaram ao conceito de pós-história. As teorias flusserianas operam justamente na clivagem entre escrita e imagem visual. Mencionarei ainda o recente trabalho de Jeff Jaeckle, Film Dialog, onde a separação analítica entre os componentes aurais e verbais do diálogo fílmico ecoam a distinção fenomenológica feita por Jacques Derrida em La voix et le phénomène, com o objetivo de demonstrar que talvez existam mais coisas em jogo na problemática relação entre regimes visuais e aurais que simplesmente uma questão de preferências ou limitações acadêmicas. Por fim, gostaria de abordar um pouco das teorias do próprio Milton Santos, que problematiza, muito precisamente, a circulação na metrópole em relação ao poder, fazendo um elogio à lentidão.
Bibliografia

CHION, Michel. Audiovision- Sound on Screen. Nova York, Columbia University Press, 1994.



DERRIDA, Jacques. La voix et le phénomène- introduction au problème du signe dans la phénoménologie de Husserl. Paris, Press Universitaires de France, 1967.



FLUSSER, Vilém. Comunicologia- reflexões sobre o futuro. São Paulo, Martins Fontes, 2014.



JAECKLE, Jeff. Film Dialogue. New York, Columbia Universtity Press, 2013.



KOZLOFF, Sarah. Invisible Storytellers – Voice-Over narrationin American Fiction Film. Berkeley, University of California Press, 1988.



___________________. Overhearing film dialog. Berkeley, University of California Press, 2000.



SANTOS, Milton. Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo, EDUSP, 1994.