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  Título
Para ver o silêncio: direção de arte e atmosfera fílmica em Soundtrack
Autor
Theresa Christina Barbosa de Medeiros
Resumo Expandido
Soundtrack (300ml, 2017) é um filme brasileiro que conta a história de Cris, um fotógrafo que viaja para uma estação de pesquisa polar, onde pretende fazer fotografias para uma exposição que terá a música como inspiração. Nos primeiros momentos do filme em que acompanhamos o personagem, desde o desenvolvimento do seu projeto, até sua viagem de ida e chegada à estação de pesquisa, mergulhamos numa atmosfera de isolamento, onde o silêncio talvez seja o som mais audível. Soundtrack teve suas cenas gravadas em um estúdio no Rio de Janeiro, com três toneladas de neve artificial que simula uma estação de pesquisa no Ártico. Coordenado pelo diretor de arte brasileiro, Tulé Peake, o trabalho da equipe de direção de arte neste filme parte da construção de uma atmosfera que produz uma sensação de distanciamento da realidade do dia a dia. Após uma pesquisa in loco no Ártico, com consultoria da Marinha Brasileira, a equipe de arte construiu uma réplica do local em estúdio e o interior de cada contêiner possuía laboratórios e dormitórios. As ações se deram em três instalações feitas nos moldes dos contêineres que os institutos científicos constroem em terrenos inóspitos.



Neste sentido, propomos uma análise de Soundtrack a partir do trabalho de criação da atmosfera fílmica e mais especificamente, a partir do trabalho da direção de arte, enfatizando os aspectos plásticos e pictóricos do filme. A equipe ou profissional de direção é responsável por “criar a base material da visualidade da imagem que será valorizada pela luz, pela decupagem, pelo registro efetuado pela câmera, pela montagem e pelo som” (JACOB, 2006, p. 63). No que se refere à atmosfera, a pesquisadora portuguesa Inês Gil defende que esta se manifesta no cinema como um “fenômeno sensível” (2011, p. 141), o que a relaciona às sensações que o filme provoca no espectador. Para Gil (2011, p. 142) a atmosfera fílmica tem “a capacidade de exprimir o ‘não figurável’, este algo intangível e abstrato que, no entanto, pode ter uma presença fundamental no espaço representativo de uma imagem”. Dessa forma, optamos por abordar a atmosfera fílmica como conceito operatório na análise e, nesse movimento metodológico, buscamos identificá-la como figura fílmica, procurando entender seu funcionamento no espaço cinematográfico.



Para esta leitura de Soundtrack, observamos como os elementos atribuídos à direção de arte, como a composição visual, as paletas de cores, os cenários, os figurinos e a maquiagem são compostos de forma a contribuir para a criação da atmosfera fílmica, articulando-se ao mesmo tempo com outras áreas no processo de criação, como a construção das ambiências sonoras desenvolvidas pelo desenho de som (CHION, 2016). Sendo assim, como a imensidão gelada daquele espaço se conecta com os sentimentos de Cris? Partimos então da seguinte questão: como a construção desse espaço “veste” o silêncio e o isolamento?
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A imagem. 2. ed. São Paulo: Papirus, 1995.



CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Trad. Pedro Elói Duarte. 3. Ed. Lisboa: Texto & Grafia, 2016.



GIL, Inês. A Atmosfera como figura fílmica. In: SOPCOM, 3., LUSOCOM, 6., Ibérico, 2., 2011, Lisboa. Atas... Lisboa, 2011. v. 1, p. 141-146.



__________. A atmosfera no cinema: o caso da “A Sombra do Caçador”, de Charles Laugthon, entre o Onirismo e Realismo. Lisboa: Fundação Caloustre Gulbenkian, Fundação para a Ciência e Tecnologia, Ministério da Cinema e do Ensino Superior, 2005.



JACOB, Elizabeth Um lugar para ser visto: a Direção de Arte e a construção da paisagem no cinema. Dissertação de Mestrado apresentada no Instituto de Artes e Comunicação da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006.



MARTINS, Índia. Interiores: aspectos plásticos e pictóricos em O outro lado da rua. In: KUSHNIR, Beatriz; VIEIRA, João Luiz (Org.). Rio 450 anos de cinema. Rio de Janeiro: Editora Em Tempo, 2016.