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  Título
Motivos visuais do cinema: um exercício de igualdade de inteligências
Autor
Leonardo Cesar Alves Moreira
Resumo Expandido
Esse ensaio surge a partir das discussões de Balló e Bergala (2016) acerca do conceito de motivos visuais do cinema. O enfoque fenomenológico trazido pelos autores em torno do conceito de motivo, permite a cada um de nós partir das imagens que se tornam significativas ao assistir determinado filme, defendendo que, a partir de nossas próprias subjetividades criemos as condições de eleger determinado(s) fragmento(s) que enfatizem as singularidades da poética de cada cineasta.

Ao refletirmos em torno do conceito de motivo, há um resgate do termo a partir da pintura. A palavra motivo passa a ser de uso corrente em determinado momento da história desta arte, onde os pintores começaram a sair de seus ateliers e a pintar a partir do motivo (BALLÓ; BERGALA, 2016). Isto é, de fragmentos do mundo, da realidade, que são expressados por paisagens, situações do cotidiano, por exemplo, e que englobam as ferramentas e os gestos de criação de cada artista.

Estas características se fazem presentes também na linguagem cinematográfica, pois apresenta influências e estímulos a partir de fragmentos do real. Sugerindo, desta maneira, uma série de motivos visuais que compõe o universo imagético de diversas obras cinematográficas. Alguns motivos visuais constantemente retratados no cinema são "a janela, a nuca, a escada, o espelho, o duelo, a sombra, o corpo que cai (...)” (Ibidem, 2016, p.12). Numa aproximação mais enfática entre alguns cineastas e seus motivos, Balló e Bergala descrevem “as mãos em Bresson, os insetos em Buñuel, os caminhos sinuosos de Kiarostami, a mulher que vaga em Akerman (...)"(Ibidem, 2016, p. 13), como alguns exemplos.

Os motivos visuais do cinema, em nossa compreensão, aparentam estar relacionados a uma série de características e formas de expressividade de cada cineasta, na sua relação com o mundo e de suas escolhas particulares no mundo, e que, frequentemente estão voltadas para a criação de suas obras cinematográficas. Desta maneira, torna-se completamente justificável que motivos visuais se repitam na linguagem cinematográfica, tendo em vista que assumem diversificadas formas de serem retratados por cada cineasta, que os levam a incorporá-los em suas obras, ressignificando-os e inventando novas possibilidades de retratá-los em seus gestos de criação.

É através desta perspectiva de invenção onde os motivos visuais do cinema se situam, que buscamos aproximá-los de uma reflexão pedagógica. Pensemos a situação hipotética de assistirmos a determinado filme em grupo. Através desta experiência podem surgir diversas ideias em torno de qual(is) motivo(s) visual(ais) estão sendo expressados em na obra, algumas consensuais, outras nem tanto. Assim, compreendemos que a eleição de motivos visuais se potencializa na singularidade de cada espectador, representando, desta maneira, uma proposta que valoriza as diversas subjetividades e experiências daqueles que se confrontam com a tela e suas imagens em movimento. Possibilitando levar-nos a escolha de incontáveis motivos, a diversas formas livres e únicas de tradução daquilo que se percebe, sente, reflete e faz com que nos relacionemos com o filme, nos fazendo traçar caminhos próprios. (RANCIÈRE, 2012)

A eleição de motivos visuais, expressam, portanto, uma alternativa ao exercício da igualdade de inteligências (RANCIÈRE, 2002) de todos os envolvidos ao assistir determinado filme. Nesse sentido, a igualdade de inteligências transparece ao estarmos diante da tela, de um mesmo filme, de modo que cada espectador possua a total liberdade para experimentar a eleição e invenção de seus próprios motivos visuais em torno da obra.

É nesse sentido que este movimento se faz como um convite à busca de nossos próprios motivos visuais, isto é, de fragmentos do real que nos apresentem como marcantes e que nos permitam, ao assistir aos filmes, a criação de nossos próprios significados e preferências diante de suas imagens.
Bibliografia

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD/UFRJ, 2008.



BALLÓ, Jordi & BERGALA, Alain. Motivos Visuales del Cine. Barcelona: Galaxia Gutemberg, 2016.



FRESQUET, Adriana. Cinema e educação: reflexões e experiências com professores e estudantes de educação básica, dentro e “fora” da escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. (Coleção Alteridade e Criação, 2).

FRESQUET, Adriana. Princípios e propostas para uma introdução ao cinema com professores e estudantes: a experiência do CINEAD/UFRJ. In: BARBOSA, Maria Carmen Silveira; SANTOS, Maria Angélica. (Org.). Escritos de Alfabetização Audiovisual. Porto Alegre: Libretos, 2014. cap. 1, p. 68-85.



RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica; 2002.



RANCIÉRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.