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  Título
Entre a Performance expandida e o Cinema expandido.
Autor
Roderick Steel
Resumo Expandido
O principal objetivo dessa pesquisa teórica-prática é delinear a relação entre a performance e a intencionalidade de seu registro, frente a reconfiguração da performance em espaços multimídia, gerando múltiplas intervenções entre performances e seus devidos registros.

Especificamente, desejamos examinar as formas em que narrativas culturais são perpetuadas por uma pessoa ou grupo e, em seguida, desestabilizadas através da performance, dentro de uma prática de arte multidisciplinar. O registro audiovisual desta prática é em seguida explorada mais detalhadamente no espaço multimídia em confronto direto com seus procedimentos fílmicos dentro de montagens performáticas e laboratoriais. O trabalho propõe uma fusão de gêneros de performance com o cinema expandido durante várias etapas; a performance presencial, seu registro cinematográfico, e por final a expansão desse registro no espaço expositivo frente a reinstituição da performance presencial.

Este projeto desfruta de experiência acumulada na obra “Cruz Branca em Terra Preta” (a ser lançado em 2018) que parte de registros documentais de eventos reais em um cemitério em Conceição Mato Dentro (MG) para nos apresentar uma mitologia construída ha mais de cem anos sobre um escravo chamado “Peixe” quando este agia como guarda e fiscalizava uma rota usada por contrabandistas de diamantes na região. De acordo com a lenda, “Peixe” foi encontrado morto com um diamante enorme na mão, assim restituindo a preciosa pedra ao seu dono. Em forma de “recompensa” por seu ato, Peixe foi enterrado no cemitério ao lado do seu Senhor e família, rompendo com um ciclo em que os corpos dos escravos mortos eram abandonados arbitrariamente pelas redondezas. Em volta do cemitério foram construídas duzentas casas, que são habitadas por parentes durante o jubileu de São Miguel Arcanjo e às Almas em agosto. Nessa época do ano, a capela, o cemitério e as casinhas são cuidadosamente caiados de branco, suas portas e janelas pintadas de azul e o local recebe centenas de romeiros. Em formato de narrativa documental, a obra mescla performances presenciais, intervenções artísticas, possessão espiritual e passagens ficcionais para criar camadas de inter-relações entre tempos e espaços diferentes. Essas diferentes camadas performativas, que transitam entre a “Performance Art” a “Live Art” e o registro documental foram filmados dentro de um dispositivo de vídeo-torre: três canais de vídeo montadas verticalmente . A intencionalidade desse dispositivo se faz presente em cada momento do registro.

A obra registra o artista-performer do filme, Rodrigo Marques, durante residência artística no, "Cemitério do Peixe" através do olhar de outros performers-cineastas que iluminam o cemitério e optam por construir registros cinematográficos da residência artística verticalmente. Estes performers-cineastas testemunham conversas entre Rodrigo e moradores da região enquanto discutem o mito do “escravo Peixe”. Rodrigo, que mora numa comunidade da periferia de Belo Horizonte, cria pontes entre a história do Peixe e a situação do negro na sociedade brasileira atual. Ele convida os moradores a repensar a mitologia local dentro de outra narrativa, uma que sua própria obra desenvolvida no local aborda. Presenciamos o momento em que Rodrigo desenvolve parte dessa obra numa performance de ‘Live-Art”. Em seguida Rodrigo “recebe” um escravo que vivia no século 18 na região. A obra cinematográfica – em sí um dispositivo-performático em sintonia com os performers-cineastas presentes em tantos momentos da obra audiovisual - transita entre espaços mitológicos e reais reorganizado narrativas através da interação de diversas performances de outros artistas: ficcionais, simbólicas e experimentais. A montagem do filme “Cruz Branca em Terra Preta” atravessa gêneros cinematográficos e coloca a intencionalidade do registro da performance como dispositivo integrado a própria performance presencial, afetando e multiplicando seus procedimentos.
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