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  Título
Comparar energias figurais: PM e Arrasta a Bandeira Colorida
Autor
Victor Ribeiro Guimarães
Resumo Expandido
Havana, Cuba, 1961. Da proa de um barco que traz homens e mulheres em busca de festa vemos as luzes de uma zona portuária da cidade. No interior dos bares enfumaçados, ao som dos ritmos afro-cubanos, o trabalho de figuração ressalta o movimento sinuoso dos corpos – que dançam ou cambaleiam bêbados –, as trocas de olhares cheios de desejo, o tilintar percussivo dos copos. O suor se mistura à fumaça dos cigarros e ao álcool derramado e compõe uma economia figurativa fluida, intensificada pelo alto contraste da fotografia, pelo desfoque frequente e pelas manchas na tela. Nessa multidão festiva filmada tão de perto, tudo aponta para um estado de embriaguez coletiva, que o curta-metragem PM (1961) retrata em sua incandescência ambígua: haverá encontro e briga, harmonia e desordem nessa noite habanera de delírio e perdição.

Primeiro caso de censura do cinema cubano revolucionário, PM foi condenado ao ostracismo e passou cinquenta anos praticamente sem ser exibido ou mencionado pelos historiadores da produção cinematográfica da ilha. O vocabulário figurativo de um texto da época justifica a censura: “por oferecer uma pintura parcial da vida noturna habanera, que empobrece, desfigura e desvirtua a atitude que o povo cubano mantém contra os ataques arteiros da contrarrevolução às ordens do imperialismo ianque” (GARCÍA BORRERO, 2009). Nas figurações do povo que irrompem logo após a revolução, predominam os signos do trabalho, do compromisso coletivo, da coesão e da luta. Em filmes como Esta tierra es nuestra (Tomás Gutiérrez Alea, 1959) e Muerte al Invasor (Alea & Santiago Álvarez, 1961), trata-se de figurar a euforia guerreira de um país em transformação pela ação autônoma de seu povo, que tomou as rédeas de sua história e agora resiste aos achaques do imperialismo ianque. Nesse sentido, a redescoberta recente de PM revela uma outra via figurativa possível, que seria sufocada pela censura e só seria retomada parcialmente na sensualidade dos filmes de Sara Gómez ou no humor crítico das obras de Gutiérrez Alea e García Espinosa de fins dos anos 1960.

São Paulo, Brasil, 1970. A partir de um conjunto de fotografias do carnaval de rua paulistano e de um repertório de marchinhas, Aloysio Raulino e Luna Alkalay realizam Arrasta a Bandeira Colorida (1970), curta-metragem que também elabora uma figuração do povo calcada nos signos da festa e da embriaguez. À primeira vista, os filmes parecem mais distantes do que próximos: se PM é uma incursão observacional herdeira do cinema direto, Arrasta a Bandeira Colorida é um filme de montagem a partir de imagens fixas, cuja operação predominante parece reenviar a outras fontes latino-americanas: as fotomontagens de Fernando Birri ou filmes como Now! (1965), de Santiago Álvarez, cujas poéticas também se apoiam no tratamento cinético, sonoro e temporal das fotografias.

Há, assim, mais que uma afinidade de procedimentos estilísticos, uma economia figurativa próxima e, de forma ainda mais intensa, uma energia figural comparável. Em Arrasta a Bandeira Colorida, as fotografias dançam como os corpos nos planos-sequência de PM: em panorâmicas, zooms agressivos, tremores e balanços – com ou sem música – ao ritmo sincopado dos cortes da montagem, que alterna paradas na imagem e entrechos velozes numa musicalidade complexa. Além de compartilharem um motivo semelhante – a festa popular –, ambos figuram o povo como uma potência sensual, múltipla, atravessada por ambiguidades e opacidades. A sinuosidade das composições e a fluidez da montagem, os enquadramentos descentrados e o alto contraste da fotografia, as zonas de desfoque e os borrões que produzem um flou constante, a economia sonora baseada nos ritmos afro-cubanos e afro-brasileiros, as singularidades dos corpos em cena, tudo aponta para a elaboração de uma energia figural extática, plural, densa. Em Cuba como aqui, trata-se de elaborar, no cinema, uma potência estético-política do povo que escapa às configurações tradicionais da luta e do cinema políticos.
Bibliografia

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GARCÍA BORRERO, Juan Antonio. Otras maneras de pensar el cine cubano. Santiago de Cuba: Editorial Oriente, 2009.

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