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  Título
Horror e novo realismo no cinema brasileiro do século XXI
Autor
Laura Loguercio Cánepa
Coautor
Genio de Paulo Alves Nascimento
Resumo Expandido
Adam Lowestein abre seu trabalho 'Schocking Representation: Historical trauma, national cinema and the modern horror film' com a pergunta: "O que o horror cinematográfico tem a nos dizer sobre os horrores da História?” (2005: 01). Ele argumenta em favor da possibilidade dos filmes de horror terem participado de maneira produtiva do debate sobre grandes questões do século XX por sua capacidade de provocar o choque com o mal. Para ele, “a noção benjaminiana de choque atesta o estado opressivo e pobre da experiência moderna, na qual a hiperestimulação sensorial exige choques a fim de provocar reação; mas choque é também um potencial catalisador para o despertar da experiência histórica” (Id: 16).



Autores como Robin Wood (1979) e Paul Wells (2000) também consideram que o horror no século XX refletiu as ansiedades de cada momento atravessado pela humanidade, o que inclui duas guerras mundiais, a criação da bomba atômica, os progressos da medicina, a mudança do status social das mulheres, as crises econômicas etc. Não por acaso, mostraram que transformações em instituições como a família, o exército, a escola e a medicina ao longo do século XX entraram com frequência nos radares da ficção de horror.



Se, como sugerem esses autores, as narrativas de horror podem ser pensadas no âmbito dos debates filosóficos e políticos de nosso tempo, o fato é que, no século XXI, a onipresença do gênero na paisagem midiática parece também ter produzido uma nova contribuição para a reflexão sobre a realidade. Como sugere Karl Schøllhammer, “no contemporâneo, rompeu-se o elo identitário com a história, e as narrativas procuram restituir essa perspectiva perdida a partir de um suposto (hipotético?) desastre irreparável. O tempo não se dirige mais em direção ao futuro ou a um fim a ser realizado pelo progresso ou pela emancipação subjetiva - agora o tempo volta-se em direção à catástrofe que interrompeu o passado.” (2012: 22).



Thomas Elsaesser relaciona alguns princípios do gênero horror desde o final século XX ao que chama de "novo realismo" – que, para ele, problematiza convenções do realismo baziniano, identificando uma espécie de “portal ou ponto de entrada que não toma mais como certa a centralidade do agente humano” (2015: 44). Nesse novo realismo, desafia-se “a suspensão de descrença do espectador, apresentando protagonistas cuja visão de mundo é marcada pelos limites colocados nas suas faculdades físicas ou mentais”. Para Elsaesser, algumas das estratégias do novo realismo consistem na presença de "protagonistas post-mortem" e de objetos e espaços que assumem “um tipo particular de presença ou atividade, levando-nos às convenções do filme de terror” (2015: 46). Porém, em vez de trabalharem na chave do medo, esses filmes teriam como objetivo “produzir uma insegurança perceptual para desenvolver uma dúvida ontológica, uma vez que somos obrigados a fazer um tipo de ajuste retroativo radical de nossas pressuposições mais fundamentais sobre o mundo diegético” (Ibid).



A ideia explorada pelo autor de que certas convenções do horror-gênero nos levem a experiências diferenciadas da realidade anima a discussão aqui proposta, que busca examinar, em longas brasileiros recentes, a interseção entre as possibilidades do horror de refletir sobre a realidade social, e também a ampliação de suas estratégias por meio desse novo realismo. Filmes como Os Inquilinos (Sergio Bianchi, 2009); Trabalhar Cansa (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2012); Mate-me, Por Favor (Anita Rocha da Silveira, 2015) mostraram o potencial dessa articulação do horror e do drama social para falar sobre a realidade brasileira na chamada Era Lula (2003-2016) – momento em que nossa sociedade viu certa ascensão da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, uma intensificação da sensação de insegurança nos centros urbanos, sobretudo entre segmentos da classe média tradicional - sensação esta que parece ter influenciado o processo de ruptura institucional que se instaurou no país desde 2015.
Bibliografia

SCHØLLHAMMER, K.E. “Para uma crítica do realismo traumático”. Soletras: UERJ, 2012, n.23 p. 19-28



ELSAESSER, T. “Cinema mundial: Realismo, Evidência, Presença”. In: MELLO, C. (org). Realismo fantasmagórico. São Paulo: USP, 2015, p. 37-59.



LOWESTEIN, A. Schocking Representation: Historical trauma, national cinema and the modern horror film. Columbia University Press: 2005.



SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo, Cia. das Letras, 2012.



WELLS, P. The Horror Genre: From Beelzebu to Blair Witch, London: Wallflower, 2000.



WOOD, R. “Introduction to American horror film”. In: _____; LIPP, Richard The American Nightmare: Essays on the Horror Film. University of Michigan Press, 1979.