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  Título
Blockbuster Multicultural: O Caso de Pantera Negra
Autor
Vilson André Moreira Gonçalves
Resumo Expandido
O objetivo deste trabalho é discutir temas abordados pelo filme Pantera Negra (Ryan Coogler, 2017), observando os recursos que a produção utiliza para apresentar estes temas a partir de sua construção narrativa e da composição estética. Proponho investigar Pantera Negra como um exemplo singular do modelo estabelecido de filme de super-herói, dado que concatena tópicos convencionais do gênero a questões como o legado problemático do colonialismo europeu, a ficção afrofuturista e o racismo sistêmico nos EUA.

Minha análise da mise-en-scène e da narrativa do filme será elaborada majoritariamente a partir dos pressupostos de David Bordwell (2008), Edward Branigan (1992) e Noël Carroll (1996). No que se refere à delimitação conceitual do gênero super-herói, baseio-me principalmente no que foi proposto por Peter Coogan (2006), Grant Morrison (2012) e Liam Burke (2015). Para tratar do tópico do olhar multicultural na representação cinematográfica, busco subsídios na obra de Ella Shohat e Robert Stam (2006) e o estudo de Ytasha Womack (2013) sobre afrofuturismo.

Pantera Negra é parte do universo expandido conhecido como Marvel Cinematic Universe (MCU), uma ampla franquia iniciada em 2008, com o lançamento de Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008). Contando com 19 filmes lançados e outras cinco produções previstas para lançamento até 2020, o MCU desfruta de ampla receptividade junto ao público e, por consequência, maciço sucesso financeiro, o que encoraja a expansão do universo. Ao longo dos últimos dez anos, os super-heróis Marvel estabeleceram seu domínio sobre o cinema comercial estadunidense, convertendo-se em um de seus gêneros mais básicos.

Para Burke (2015), este domínio é consequência de diversos fatores, incluindo a busca dos públicos contemporâneos, especialmente após os atentados de 11 de Setembro de 2001, por formas diretas, bombásticas e francas de heroísmo no cinema, caracterizadas por uma clara distinção entre o bem e o mal nas telas. Os super-heróis das histórias em quadrinhos, com sua supremacia moral e física, exploraram essa demanda com grande efeito.

O caso de Pantera Negra se apresenta como especialmente emblemático dentro deste panorama. Sua narrativa desloca o foco dos EUA para a nação fictícia de Wakanda, um reino africano jamais tocado pelo colonialismo. Wakanda é rica em razão do uso que faz de um raríssimo recurso natural, o metal conhecido como vibrânio. A mise-en-scène de Wakanda quebra estereótipos convencionalmente associados aos países africanos, apresentando o que parece ser o país mais tecnologicamente avançado do globo.

O uso da tecnologia não impede, entretanto, que o reino preserve os fortíssimos traços culturais de um reino que jamais foi submetido pelas influências linguísticas, religiosas e materiais do colonialismo europeu. Para construir esta representação, como pretendo discutir neste artigo, o filme coleta influências de diversas regiões do continente africano, a fim de amalgamá-las em uma única nação, que é triunfantemente “pan-africana”.

Em vista do lugar que ocupa no poderoso fenômeno dos super-heróis no cinema, cabe problematizar esta construção, observando como ela se desdobra e de que forma repercute no cenário maior do cinema comercial hollywoodiano. É possível que Pantera Negra represente a tensa coexistência de convenções cinematográficas e uma peculiar quebra de paradigma no modelo, o que pode eventualmente repercutir em novas possibilidades para produções do tipo.
Bibliografia

BORDWELL, D. Superheroes for Sale. Observations on Film Art, 16 Aug. 2008. Disponível em: . Acesso em: 10 jan 2017.

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SHOHAT E.; STAM, R. Crítica da Imagem Eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

WOMACK, Y. L. Afrofuturism: The World of Black Sci-Fi and Fantasy Culture. Chicago: Lawrence Hill Books, 2013.