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  Título
Deleuze e Merleau-Ponty: o cinema em seu renascimento continuado
Autor
Julio Bezerra
Resumo Expandido
Algumas das idéias mais inovadoras e influentes da teoria do cinema nos últimos anos estão em dívida com as obras de Deleuze e Merleau-Ponty. Focalizando a percepção como uma experiência encarnada e enraizada, Merleau-Ponty identificou uma convergência entre fenomenologia e cinema, uma intenção comum de nos fazer reaprender a ver o mundo. Deleuze imaginou o cinema não como uma reflexão ou reprodução de algo que já existe, mas algo como o surgimento de uma atividade crítica visionária, aberta ao universo bergsoniano de energias, processos e intensidades. Podemos sentir a presença de suas filosofias e respectivos investimentos na teoria do cinema ao longo das reviravoltas afetivas e sensoriais, que tomaram de assalto a reflexão sobre a sétima arte.



O que chama a atenção é a falta flagrante de interesse em explorar um movimento de reaproximação entre esses filósofos. Deleuze e Merleau-Ponty são vistos como opostos. O próprio Deleuze enxergava o cinema como uma alternativa radical à teoria fenomenológica da percepção, rejeitando os relatos fenomenológicos da experiência cinematográfica, por, segundo ele, equipararem a "percepção cinematográfica" à "percepção natural". A fenomenologia, nas palavras de Deleuze, seria "pré-cinematográfica".



Deleuze está certo em nos alertar para o aspecto fundacionalista que embaraça a fenomenologia inicial de Merleau-Ponty. De fato, a abordagem fenomenológica enfatiza a interação, a continuidade e a transição entre o cineasta, o cinema e o espectador, embora Merleau-Ponty esteja sempre procurando um plano em que esses termos sejam confundidos. Diante dos comentários de Deleuze e suas referências à fenomenologia nos livros de cinema, esta apresentação argumenta que, embora não seguindo uma lógica fenomenológica em geral, em certos momentos Deleuze cruza com a fenomenologia. Além disso, é evidente que a existência das imagens em movimento no cinema depende da experiência do espectador em assistir filmes.



Enquanto escritores de ambos os lados freqüentemente citam e reproduzem passagens nas quais Deleuze distingue entre uma abordagem bergsoniana e fenomenologia e parecem preferir a primeira, eles tendem a ignorar lugares nos livros de cinema nos quais Deleuze assume o método e os conceitos fenomenológicos. Outros tentaram resumidamente combinar o trabalho de Deleuze com Merleau-Ponty, mas quase sempre de maneira ambivalente. É verdade que existem divergências entre eles - e abordaremos suas principais diferenças -, mas seus interesses e pontos de vista não são de modo algum irreconciliáveis, ao contrário.



Nossa aposta não é, então, em uma oposição, mas em uma espécie de comunhão entre Deleuze e Merleau-Ponty. Ambos vêem a imagem como uma amálgama de tempo e movimento e enfatizam que os significados de um filme não emergem apenas da narrativa, dos diálogos, das tomadas, da montagem, mas também, ou talvez acima de tudo, de um jogo reversível, dialético e dialógico entre filme, realidade e espectador, num processo de constituição recíproca. Merleau-Ponty e Deleuze nos ajudam a entender que a imagem cinematográfica se percebe e se expressa antes de articular seus significados. O que se vislumbra, então, é uma maneira de ver e se aventurar pelo cinema em seu contínuo renascimento, algo como a captura do instituído como criação.



O que é perceptível é a possibilidade de uma explicação ontológica do filme, enfatizando seu aspecto não mimético, como uma apresentação de um não apresentável. Acredito que cada uma dessas obras tem um certo impensado, isto é, aquilo que, através delas, nos arrebata como algo que ainda não havia sido pensado. Este impensado não pertence a Merleau-Ponty ou Deleuze, muito menos a seus fervorosos e respectivos seguidores. Nós vamos até eles à procura de ferramentas e, com elas, pode ser possível explorar melhor o cinema em virtude de sua proposta ontológica, em seu contínuo renascimento.
Bibliografia

BAZIN, Andre. O que é o cinema ?. Lisboa: Livros Horizontes, 1992.



MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

_________________________. Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

_________________________. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2000.

_________________________. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naif, 2004.

_________________________. "O cinema e a nova psicologia". In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983.



DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 1999.

_______________. Francis Bacon – Lógica da sensação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

_______________. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1995.

_______________. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.