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  Título
FILMES-COREOGRAFIAS: CORPOS COREOPOLÍTICOS
Autor
JOUBERT DE ALBUQUERQUE ARRAIS
Resumo Expandido
Esta proposta é uma continuidade da comunicação “Danças Filmadas: Coreografia e Comunicação Audiovisual”, apresentada no XXI Encontro da SOCINE, em João Pessoa (PB). A partir dela, buscamos aprofundar a relação entre as linguagens do cinema e da dança na perspectiva expandida. Constatamos que, em certa medida, o cinema dança no que o filme coreografa.

Para tanto, apresentamos uma rede afetiva que evidencia lógicas entrelaçadas de imagens e corporeidades para refletirmos sobre/com certas danças e coreografias quando imbricadas na feitura fílmica do cinema, referindo-se, assim, a uma dimensão ontológica do corpo em movimento com deslocamentos/paragens (LEPECKI, 2006).

Ao longo das décadas, o filme vem sendo tratado como cinema, ambicionando ultrapassar o mero registro documental da performance artística. Mas o filme não pode ser confundido com o cinema: “o filme é um modo de pensar as imagens” (MICHAUD, 2014, p.11). Historicamente, o mesmo vem acontecendo com a coreografia. Não sendo apenas sinônimo de dança, coreografia pode ser entendida como princípio teórico que articula práticas artísticas com a sociedade e a política (LEPECKI, 2013; HEWITT, 2005).

Nesse sentido, os corpos em movimento e o movimento deles/neles são sociais e políticos: Corpos Coreopolíticos. Nossa hipótese é de que o cinema que se constitui de momentos de danças podem ser vistos e lidos como filmes-coreografias. Com o cinema, a compreensão da dança se transforma. Com a dança, a percepção do cinema se revigora. Ambas as linguagens se interseccionam: a dança como arte visual com o cinema enquanto arte coreográfica (ROSENBERG, 2016). Duas obras de cinema compõem nosso objeto de estudo: Bande à part (1964), de Jean-Luc Godard (1930-); e O Porto de Santos (1978), de Aloysio Raulino (1947-2013).

Na obra francesa, a cena de dança do bar inspirou um videoclipe da música Dance With Me (2006), da banda Novelle Vague, que a reproduz na íntegra, cujo o nome do álbum é o mesmo da referida obra de Godard. No caso da corrida pelo Museu do Louvre, esta inspirou uma cena em Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, como se quisesse bater o recorde original do trio, de aproximados nove minutos. Seriam esses Corpos Coreopolíticos: corpos comunitários em estéticas coreográficas (RANCIERE, 2005) e/ou reenactments políticos (GREINER; 2017)?

Já em Porto de Santos, um operário caiçara performa uma dança sensual de frente para a câmera. No entorno, outro movimento acontece ao som de Amante Latino (1977), de Sidney Magal, com moradores locais e olhares coreografados pela corporeidade e pelo movimento da dança dele. Nesta cena, há uma virtuose política do corpo que coreografa nossa percepção para uma noção afetiva de marginalidade: um corpo à margem da sociedade. Remete-nos a um Madame Satã (2002) dos Portos ou a um O confete da Índia (2013), este assumidamente uma dança do corpo-desbunde Dzi Croquettes (grupo anos 70 e documentário de 2010).

Por isso nos parece pertinente falarmos de dispositivo (AGAMBEN, 2009; FOUCAULT, 2010/1979), no sentido tanto fílmico como coreográfico. São, em certa medida, filmes coreografados. Interseccionados, tratam-se de filmes “com” dança, que podem se entrelaçar enquanto filmes “de” dança – Acummulations (1971) e Watermotor (1978), da coreógrafa Trisha Brown (EUA) –; e como filmes “sobre” dança – os celebrados Flashdance (1983), Billy Elliot/Dancer (2000) e Cisne Negro (2011). Temos ainda, o curta-metragem e o(a) vídeodança Sensações Contrárias (2007), de Amadeu Alban, Jorge Alencar e Matheus Rocha, que recebeu prêmio de melhor Vídeo experimental no Festival de Gramado.

Nesse breve panorama, as experiências dançadas nas obras de Godard e Raulino são dispositivos fílmicos e coreográficos. Nelas e com elas, acionamos uma percepção expandida relacionada ao cinema com dança que nos inquieta naquilo que já é cinema e que pode vir a ser dança; e, também, no que é filme e que pode vir a ser coreografia: o fílmico na dança e o coreográfico no cinema.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Eds. Graal, 2010 (1979).

GREINER, Christine. O reenactment politico da performance e seus microativismos de afetos. In: PAIS, Ana (org.) A performance na esfera pública. Lisboa: Orfeu Negro, 2017. 183-194 p.

HEWITT, Andrew. Social Choreography: Ideology as Performance in Dance and Everyday Movement. Durham/London: Duke UNiversity Press, 2005.

LEPECKI, André. Coreopolítica e coreopolícia. In: Ilha Revista de Antropologia. Florianópolis, v. 13, n. 1,2, jan. 2013. p. 41-60.

LEPECKI, André. Exhausting Dance: Performance and the Politics of Movement. London: Routledge, 2006.

MICHAUD, Philippe-Alain. Filme: por uma teoria expandida do cinema. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34 / EXO org., 2005.

ROSENBERG, Susan. Trisha Brown: Choreography as Visual Art. New York, 2016.