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  Título
Órun Áiyé - Tessituras de memória e ancestralidade no Cinema Negro
Autor
Edileuza Penha de Souza
Resumo Expandido
Dirigido por Jamile Coelho e Cíntia Maria, a animação “Órun Áiyé: a criação do mundo” Brasil, 12min, 2015, apresenta um mito de como os Deuses do Panteão Africano, receberam a missão de criar o mundo. A narrativa nos possibilita edificar um conjunto de categorias acadêmicas para discutir os espaços de representações da animação na territorialidade do Cinema Negro Feminino. Observa-se que ao produzirem e dirigirem filmes, as mulheres negras edificam o cinema como espaço de pertencimento e de referência da história e da cultura negras. Seus trabalhos e suas práticas fílmicas constroem uma cinematografia fora da estereotipia, sedimenta o desenvolvimento humano, como possibilidades de amor e afetos.

O filme, incorpora em suas narrativas fílmica as comunalidades religiosas de matriz africana, tendo como referência teórico-metodológica parte das lutas de emancipação negro-africano no Brasil. Ancorado nos ideias de emancipação e a luta por igualdade a arkhé africana presente na animação “Òrun Àiyé – A Criação do mundo” nos possibilita compreender de que existe uma dinâmica espaço-temporal histórica e existencial que estrutura e desenvolve a narrativa fílmica, são “as pulsões de sociabilidade própria das comunalidades tradicionais, caracteriza-se pela infinitude. Portanto, a abordagem sobre contemporaneidade não se esgota, há muito o que se pensar e sentir sobre essa experiência (LUZ, 1999, p. 68).

O contorno com que as diretoras flexibilizam as relações de gênero, rompem as assimetrias e demarcam identidades de gênero e raça. Ou seja, duas mulheres negras que fazem de seu filme um verdadeiro manifesto das diversas identidades sociais, políticas e religiosas que balizam a narrativa. Tratando-se portanto, de uma narrativa imagética e sonora centrada no feminino negro, onde as autoras experimentam possibilidades de transmitir na animação, reflexões sobre a questão da intolerância religiosa no Brasil. Que como afirmava o Professor Dalmir Francisco a intolerância as religiões de matriz africana fazem um “esforço de narrativa do negro como um ser sem história”, busca o apagamento da história e das civilizações africanas numa tentativa incessantes de apagar o protagonismo do povo negro no Continente Africano e na diáspora (2006, p. 145).

Jamile Coelho e Cintia Maria usam a imagem e todo seu universo artístico para criar novos conceitos e novos pensamentos. A animação “Órun Áiyé: a criação do mundo” ergue o cinema de animação, como espaço de pertencimento e de referência da história e da cultura negras. A história narrada por Vovó Bira descortinam na homenagem ao historiador e professor Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013) um cinema negro feminino tecido de identidade, memória e afeto.
Bibliografia

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CANDIDO, Marcia R.; MORATELLI, Gabriella; DAFLON, Verônica T.; FERES JÚNIOR, João. A cara do cinema nacional: gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012).

FRANCISCO, Dalmir. Comunicação, identidade cultural e racismo. In: FONSECA, Maria Nazereth Soares (Org.). Brasil afro-brasileiro. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 117-151.

FRANCO, Marilia. Hipotese-cinema: multiplos diálogos. Revista Contemporânea de Educação, v. 05, , 2010, p. 01-16.

LUZ, C.P. Narcimária. Wasoju: dinâmica da expansão existencial das diversas contemporaneidades. Revista da Faeeba, Educação e Contemporaneidade, Salvador, UNEB, 1999.

SOUZA,Edileuza Penha de. Contando nossas próprias histórias: Mulheres negras arquitetando o cinema brasileiro. Avanca: Edições Cine-Clube de Avanca, 2016