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  Título
Heranças do popular e do cinema de Leon Hirszman no filme "Arábia"
Autor
Reinaldo Cardenuto Filho
Resumo Expandido
No filme Arábia (2017), de Affonso Uchoa e João Dumans, a narrativa encontra-se intimamente relacionada à transmissão de um legado pertencente à classe popular brasileira. Na região de Ouro Preto, em Minas Gerais, o jovem André atravessa seus dias em uma espécie de orfandade identitária. Morador de uma casa simples, cujo espaço divide com o irmão mais novo, a solidão do personagem provém não apenas da ausência dos pais, que se encontram inacessíveis em alguma parte do Brasil, mas sobretudo da falta de um vínculo comunitário com a cidade onde vive. A despeito da proximidade com a tia, que se desdobra entre o ofício de enfermeira e os cuidados dispensados aos sobrinhos, André existe enquanto sujeito exilado, destituído de ligações orgânicas com a vizinhança que o rodeia. Na travessia solitária das ruas ou no isolamento da casa, o adolescente surge distante do ambiente público, habitando uma comunidade sem de fato habitá-la socialmente.

A ruptura de tal isolamento ocorre, em Arábia, por força do acaso. Ao ajudar sua tia com os cuidados ao operário Cristiano, que sofreu um acidente na fábrica, André adentra a residência do trabalhador com o objetivo de levar roupas e documentos para o hospital. Na privacidade do outro, o jovem se depara com um caderno onde Cristiano rememora a jornada alquebrada de sua vida. Escrito como um livro íntimo de memórias, o caderno encontra, graças às circunstâncias, o seu leitor. A partir das páginas onde a grafia não é a do escritor profissional, mas a do povo em sua expressão pessoal, André finalmente acessa um legado que até então lhe era alheio.

O adolescente, e por extensão os espectadores do filme, passam a acompanhar o percurso de Cristiano, percurso síntese de tantos sujeitos originários da camada popular. Qual uma Sherazade latinoamericana, narrador das profundas contradições dos trópicos, o operário transmite através de sua escrita os infortúnios e desejos que povoam o viver e o imaginário da população pobre do país. A sua jornada, na condição épica de uma classe, é atravessada pela dialética entre sobreviver e resistir, entre lidar com as precariedades da vida e envolver-se com afetos e vínculos sociais comunitários. Em Arábia, a reposição do narrador, a despeito dos debates acerca de sua morte a partir do pensamento benjaminiano, é o fio condutor de uma herança histórica, a transmissão de experiências dolorosas e, por que não?, de utopias redivivas do popular.

Em Arábia, no entanto, a transmissão do legado vai além da oralidade que reconta uma trajetória. A singularidade do filme, na esteira das heranças a serem retomadas no tempo presente, encontra-se na opção em dialogar com representações oriundas do Cinema Novo para compor a narrativa de Cristiano. Estabelecendo uma aproximação com os filmes de Leon Hirszman, neles localizando uma matriz que deve permanecer enquanto resistência política e leitura do popular, os realizadores de Arábia constroem a travessia do personagem por meio da apropriação criativa de situações originalmente encontradas na obra do cineasta. A precarização do trabalho, a violência patronal, o patriarcalismo, a solidariedade dos humilhados e os vislumbres utópicos de resistência, questões que atravessam os (des)caminhos de Cristiano, por vezes manifestam-se em Arábia a partir da atualização de cenas presentes em filmes de Hirszman como Pedreira de São Diogo, S. Bernardo ou Eles não usam black-tie. No longa-metragem de Uchoa e Dumans, o cinema não repõe apenas a figura do narrador como transmissor de experiências, mas reativa um legado do cinema brasileiro que entusiastas de certa pós-modernidade insistem em declarar morto. Diante de um país que não superou suas contradições, onde os retrocessos avançam, Arábia sugere a reativação de uma matriz cinematográfica cuja potência, a despeito dos limites, foi escancarar a condição autoritária existente no Brasil. Essa comunicação pretende analisar o filme Arábia, destacando as dimensões dos legados ali presentes.
Bibliografia

ANGELO, Fernanda Hallak; ANGELO, Raquel Hallak (orgs.). 21 Mostra de Cinema de Tiradentes. Catálogo. Belo Horizonte: Universo Produções, 2018.



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BORGES, Jorge Luis. “Os tradutores das Mil e uma noites”. In. Histórias da eternidade. São Paulo: Globo, 2011, p. 79-106.



CARDENUTO, Reinaldo. O cinema político de Leon Hirszman (1976-1981): engajamento e resistência durante o regime militar brasileiro. Tese (Doutorado em Ciências) – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2014.



CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Perseu Abramo, 2000.



LIVRO das mil e uma noites, v.1 – ramo sírio. São Paulo: Globo, 2005.