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  Título
A febre das ficções no cinema contemporâneo
Autor
Leonardo Bomfim Pedrosa
Resumo Expandido
A pesquisa nasce de uma interrogação crescente em relação a algumas filmografias centrais deste século: de Mariano Llinás (Histórias Extraordinárias, 2008; La Flor, 2018), de Hong Sangsoo (Noite e Dia, 2008; A Visitante Francesa, 2012; Certo Agora, Errado Antes; 2015), de Apichatpong Weerasethakul (Mal dos Trópicos, 2004; Síndromes e um Século, 2006; Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, 2010) e de Miguel Gomes (A Cara Que Mereces, 2005; Aquele Querido Mês de Agosto, 2007; Tabu; 2012, As Mil e Uma Noites; 2015).

Identificamos a relação entre essas quatro filmografias a partir do modo como provocam uma febre das ficções, instigando artifícios de narração e encenação, em uma abertura incondicional ao ato de fabulação, revelada especialmente na busca pela acumulação heterogênea de gêneros e formas, a tendência ao desvio e, especialmente, no jogo com a repetição e com o duplo.

O “era uma vez” torna-se uma possibilidade de “eram duas vezes”; surgem as mil e uma histórias dentro de um filme só; uma trama, com os mesmos atores/personagens, pode ser encenada novamente em outro contexto; um filme de determinado gênero ou forma pode, num golpe de olhos, tornar-se outro. Reivindica-se um cinema que pode existir em constante metamorfose. Os recursos da metalinguagem e da mise en abyme são explorados ao infinito e os alguns cânones desse tipo de jogo são referenciados: Dom Quixote, As Mil e Uma Noites, Edgar Allan Poe, Jorge Luis Borges, Guy de Maupassant.

Não se trata de uma mera retomada de elementos de narração e de dramaturgia que o cinema herdou do teatro e da literatura – e que muitas vezes foram questionados e mesmo eliminados na paisagem contemporânea. Não parece existir uma vontade de colocar as coisas no lugar. A febre das ficções e sua constelação de excessos nos leva ao extremo oposto, à sensação de perplexidade.

A necessidade da fabulação para que o mundo seja posto em cena muitas vezes é encarada como a antítese de uma possível essência cinematográfica, a que entende essa arte como a única que pode (e, em casos mais dogmáticos, deve) manter essa eletricidade primordial: o mundo sendo olhado ao mesmo tempo em que se olha o mundo. Quando surge um véu entre esse encontro, outra perspectiva naturalmente começa a existir na arte cinematográfica; e quando esse véu é multiplicado, o acesso ao mundo e ao sujeito torna-se extremamente aventureiro e vertiginoso.

Estaríamos diante de um novo maneirismo cinematográfico (aquele definido por Alain Bergala em texto de 1985)? Tais filmes sentem e revelam o peso de ter, ao mesmo tempo, o desejo e a dificuldade de inventar um plano ou de escolher um tema? Mas pode existir um exibicionismo consciente da impossibilidade de se estabelecer uma relação direta com o mundo: e o labirinto pode se tornar um parque de diversões? Trata-se de um cinema do “entrincheirar-se nos fantasmas”, para usar uma expressão de Merleau-Ponty em relação à impossibilidade do acesso ao mundo? Um vestígio contemporâneo daquele momento em que a arte desenha o negativo do mundo da Renascença, como pensou Foucault a respeito de Dom Quixote? Estamos diante de mais um capítulo de um fluxo/refluxo constante da história do cinema, uma tensão entre o relato no mundo e o relato do mundo, que remonta às primeiras batalhas, às invenções e reinvenções dos Lumière, Méliès e outros pioneiros?

Para clarear essas questões, buscamos uma genealogia de momentos em que as ficções arderam no cinema: desde o instante em que Méliès trocou a arte absoluta do olhar, a marca dos Lumière, pela arte de encenar – e evidenciou de forma fantasmagórica esse ato em suas obras; atravessando a crise da representação do pós-guerra encarnada especialmente por Welles, Renoir e Hitchcock, com ecos em outras filmografias essenciais que existiram ao longo do século vinte e proporcionaram aventuras inestimáveis até o enterro do cinema moderno, como as de Resnais, Buñuel, Rivette, Ruiz, Oliveira, Lynch, Kiarostami.
Bibliografia

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