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  Título
Uma longa viagem, de Lucia Murat: mulheres, corpo e punição
Autor
Gabriela Santos Alves
Resumo Expandido
No cenário audiovisual brasileiro são vários os filmes que tratam do período ditatorial no país e seus desdobramentos, contribuindo para a formação de uma memória coletiva sobre o tema. Julgo importante, contudo, analisar uma lacuna ainda presente: o papel da realizadora e o da representatividade feminina. Nessa linha, proponho uma reflexão sobre o filme Uma longa viagem (2011), da cineasta Lucia Murat, com foco nas estratégias de representação utilizadas pela diretora, que também é roteirista, dessa obra marcada por memórias de traumas e afetos que atravessam os corpos de seus protagonistas: a própria Lucia, dois de seus irmãos e sua mãe.



Uma longa viagem trata do afeto entre esses irmãos, da ausência e das distâncias entre eles e utiliza como uma de suas estratégias as cartas enviadas por um deles à mãe, além de entrevistas e comentários em voz over que retratam os traumas do claustro e da distância e questionam a tênue e delicada linha que separa as noções de prisão e liberdade. Essa relação é aqui pensada através das ações dos quatro protagonistas (Lucia, seus irmãos e sua mãe) e da maneira pela qual cada um deles vivencia sua própria experiência de claustro, seja ele físico ou simbólico.



Angela Davis, no quarto capítulo de “São as prisões obsoletas?” — livro chave para o questionamento do sistema prisional —, propõe um reflexão sobre como o gênero estrutura esse sistema, em um análise que trata da realidade americana mas que cabe também à nossa. Um dos conceitos principais da obra e da reflexão de Angela, e que aqui guiará minha análise do ponto de vista teórico, é a noção de punição.



Como se executa a punição para a mulher que vive sob regime de privação de liberdade? E a punição para a mulher que está fora das grades mas que também vivencia a experiência da prisão? Como a punição do sistema prisional se constrói sobre o corpo feminino? Como as questões de gênero da punição estatal se revelam a medida em que as prisões de mulheres se apegam a práticas patriarcais opressivas? São essas as principais questões que pretendo desenvolver em minha análise.
Bibliografia

DAVIS, Angela, DENT, Gina. A prisão como fronteira: uma conversa sobre gênero, globalização e punição. Revista Estudos Feministas. Vol.11, no.2, Florianópolis. Jul-Dez. 2003.

___________. Como o gênero estrutura o sistema prisional. Prisões são obsoletas? Disponível em: , acesso em 22/11/2017.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Trad.: Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

LAGARDE Y DE LOS RIOS, Marcela. Los cautiverios de las mujeres: madresposas, monjas, putas, presas y locas. 5ª edição. México, D.F.: Siglo XXI, UNAM, 2014.

LEME, Caroline Gomes. Ditadura em imagem e som: trinta anos de produções cinematográficas sobre o regime militar brasileiro. São Paulo: Editora Unesp, 2013.



PENAFRIA, Manuela. Análise de Filmes - conceitos e metodologia(s). VI Congresso SOPCOM, Lisboa, 2009. Anais eletrônicos... Lisboa, SOPCOM, 2009. Dispon