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  Título
Imagens complexas da alteridade em narrativas audiovisuais de conflito
Autor
José Augusto Mendes Lobato
Resumo Expandido
Amplamente debatida nos estudos das narrativas e da cultura visual, a recorrência da imagem como instância mediadora, a um só tempo campo de reconhecimento, rotinização e ancoragem do mundo, é também perceptível quando nos deparamos com representações que têm o outro no centro de sua intriga – tomando-o como objeto de viagens simbólicas, descobertas e processos de tradução. Como nos diz Vilém Flusser (2007, p.167), “não é possível se orientar no mundo sem que se faça antes uma imagem dele” – e isso inclui, de certo, a alteridade, duplo-oposto indissociável da formação do eu/nós.



De forma conectada a uma demanda permanente pela compreensão, por enunciar o diferente, expor seus conflitos, fissuras e fronteiras, as por nós denominadas narrativas de alteridade são peças recorrentes na comunicação audiovisual; povoam e atravessam produções de ficção e não ficção em campos tão distintos como o jornalismo, o cinema, a publicidade e o documentário.



Mais uma vez recorrendo a Flusser, afirmamos que estas propõem um outro tipo de experiência – tensionada entre mediação e midiatização – do outro, alinhado à concepção de um sujeito que “deseja experimentar, conhecer e, sobretudo, desfrutar” (FLUSSER, 2007, p.58). Para isso, requerem estratégias discursivas próprias – já estudadas por nós na linguagem televisual (LOBATO, 2017) – e fomentam regimes perceptivos próprios, em linha com a noção de complexidade e sua aplicação ao exame das imagens contemporâneas.



Com foco nos registros visuais distribuídos na comunicação multiplataforma para tratar de conflitos socioculturais e geopolíticos, este trabalho propõe um estudo sobre as potencialidades narrativas da enunciação do outro por meio da linguagem audiovisual – mais precisamente, recorrendo à análise de vídeos pertencentes a séries de reportagens multimídia.



A partir do conceito de narrativa de alteridade, examinamos de que modo o atual regime da cultura visual marca presença nesses produtos audiovisuais informativos, em especial em suas facetas de multiplicidade, estrutura dissipativa e entre-captura, nos termos da teoria da imagem complexa. Para tal, elegemos como objetos de análise vídeos publicados em “Um Mundo de Muros”, série multimídia publicada pela Folha de S. Paulo no segundo semestre de 2017.



Para fundamentação teórico-analítica do estudo, recorremos às teorias da imagem e aos estudos de linguagem, cultura e mídia, que evocam diferentes sentidos e modos de demarcação das identidades e suas fronteiras, em especial ancorados em Homi Bhabha (1998) e, no estudo da imagem complexa, em Josep María Català (2005).



Também propomos o diálogo com outros autores dos estudos sobre imagem, como Flusser (2007), Philippe Dubois (1993), Susan Sontag (2003) e Régis Debray (1993), a fim de mergulhar nas reflexões sobre os efeitos da midiatização, as funções, os recursos mobilizadores e o poder enunciativo do audiovisual, dentro e fora dos campos factuais. Adicionalmente, trabalhamos na categorização da grande reportagem multimídia como gênero, fundamentados nos trabalhos de Longhi (2014), a fim de delimitar um lugar midiático específico de onde emana nosso objeto empírico.



Nossa análise abrangeu um conjunto de doze vídeos, com duração entre três e dez minutos, publicados na série “Um Mundo de Muros”. As reportagens apresentam áreas atravessadas por barreiras em diferentes regiões do planeta: fronteira Cisjordânia-Israel; Lima, no Peru; fronteira Sérvia-Hungria; a rodovia dos Imigrantes, no Brasil; fronteira Quênia-Somália; e fronteira México-Estados Unidos. De maneira complementar aos textos e fotografias, nota-se que os vídeos – apresentados na forma de pequenos documentários, que oscilam entre o expositivo e o observativo (NICHOLS, 2005) – reforçam estratégias testemunhais-realísticas e recorrem às imagens como mecanismos de evocação afetiva e tradução de alteridade, refletindo, assim, possibilidades interativas entre cinema documentário e jornalismo digital à hora de dar a ver o outro.
Bibliografia

BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

BUITONI, Dulcilia. Imagens contemporâneas: complexidades e interfaces. Líbero, v. 15, nº. 29, jun. 2012.

CATALÀ, Josep María. La imagen compleja. Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, 2005.

DEBRAY, Régis. Vida e morte da imagem. Petrópolis: Vozes, 1993.

DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 1993.

FLUSSER, Vilém. O mundo codificado. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

LOBATO, José A. A alteridade na ficção seriada e na grande reportagem. Um estudo sobre as estratégias de representação do outro na narrativa televisual brasileira. 2017. Tese (Doutorado) – USP, São Paulo, 2017.

LONGHI, Raquel Ritter. O turning point da grande reportagem multimídia. Famecos. v. 21, nº 3, set./dez. 2014.

NICHOLS, Bill. A voz do documentário. In: RAMOS, F. (org.). Teoria contemporânea do cinema. São Paulo: Editora Senac, 2005.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.