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  Título
Alma educadora: Carmen Santos e a produção de Inconfidência Mineira
Autor
Lívia Maria Gonçalves Cabrera
Resumo Expandido
A apresentação abordará a pesquisa em andamento sobre a realização do filme Inconfidência Mineira (1948), escrito, produzido, dirigido e estrelado por Carmen Santos, que iniciou a etapa de pré-produção em 1937, tendo realizado as filmagens entre 1941 e 1948, sendo este último o ano de sua exibição. O objeto fílmico desapareceu no incêndio ocorrido nos estúdios da Brasil Vita Film, mas restaram aos dias de hoje uma extensa documentação localizada em diversos arquivos brasileiros, com destaque para a grande quantidade de reportagens reunidas por Pedro Lima. A cobertura realizada pela imprensa fornece indícios da relevância da obra no período e da expectativa em torno do filme por parte da imprensa e de figuras públicas de renome na área de educação e do cinema. O estudo de uma obra fílmica desaparecida em sua forma original, da qual restaram apenas trechos, roteiros, reportagens, fotografias e depoimentos, faz a pesquisa, ao recorrer a outros materiais, enxergar novas possibilidades de análise, articulando outras abordagens para pensar o objeto fílmico.

Carmen, imersa num contexto de construção e consolidação do cinema brasileiro espelhado no modelo clássico-industrial norte-americano, desejava realizar Inconfidência inspirada pelos épicos do diretor americano Cecil B. DeMille, procurando fornecer as melhores condições de produção possíveis para a época num filme reconhecido como o de “maior preparo conhecido até então pelo cinema brasileiro”, segundo Jurandyr Noronha. Para tanto, ela inicialmente concentrou esforços na construção e aquisição de equipamentos do seu estúdio, a Brasil Vita Film, e por muito tempo contatou e convidou para o trabalho os melhores técnicos e artistas, bem como consultou diversos documentos históricos e foi assistida por intelectuais e historiadores envolvidos com o debate do cinema-educação e os anseios do governo varguista.

A documentação consultada aponta para uma produção realizada de acordo com uma ampla política estatal que buscava a construção de uma identidade nacional através de um sentimento de pertencimento. A realização de uma obra como Inconfidência Mineira está relacionada com o momento em que pedagogos debatiam o cinema educativo no Brasil, pensando nele como veículo divulgador de ideias. A construção de um projeto educacional, influenciado pela filosofia positivista, acreditava na cientificidade como único meio de chegar ao conhecimento verdadeiro. Essas ideias atravessaram o filme desde a temática escolhida, passando pelos meios de produção da obra, chegando à exibição e recepção.

Ao levantarmos dados da biografia da realizadora, verifica-se que ela continuou trabalhando em outros filmes, mas era Inconfidência a obra mais importante e dispendiosa de sua carreira, a primeira em que assumia a direção (sendo a terceira mulher brasileira a dirigir um filme longa-metragem de ficção). Após a análise da documentação encontrada, de uma versão do roteiro e do acesso a algumas imagens feitas para o filme, questiona-se as razões que motivaram Carmen a canalizar tantos esforços em torno dessa obra que objetivava despertar nos espectadores os valores nacionais, educando moralmente e culturalmente a população dentro dos propósitos que acreditavam ser corretos e ideais para o desenvolvimento do país. Acredita-se que a articulação das escolhas cinematográfica com os processos políticos, sociais e culturais do período elucidarão uma parte importante da história brasileira, das produções da Brasil Vita Film e da carreira de uma importante figura feminina do cinema brasileiro, com uma intensa participação política de liderança na consolidação da indústria cinematográfica brasileira da primeira metade do século XX.
Bibliografia

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