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  Título
Uma alquimia do informe: o cinema ruidoso de Jürgen Reble
Autor
Rodrigo Faustini dos Santos
Resumo Expandido
Em seus textos sobre o cinema found footage, André Habib (2008) propõe uma topografia de duas linhas de criação constantes - a dos “cineastas-catadores", interessados na pátina do tempo sobre as imagens, operando um resgate da cultura material análogo ao do trabalho do arqueólogo ou do colecionador de curiosidades, minimizando a intervenção no material, focando seu trabalho nas re-organizações possíveis e condições de apresentação dos achados (teríamos aqui Peter Delpeut, Bill Morrison, entre outros); e a prática dos "cineastas-alquimistas", que se diferencia destes ao interferirem diretamente (e corrosivamente) no material de arquivo, visando "transmutá-lo" em algo novo. O autor continua sua delineação da prática ao compará-la à "alquimia do verbo" alegorizada por Rimbaud, que fala de uma busca por “faíscas de Ouro” em sua poética.

A hipótese de um cinema alquimico provém, como o autor indica, de Jürgen Reble, cineasta que se declara um alquimista fílmico, fazendo diversas referências à arte hermética em sua obra. De início, porém, a relação com a alquimia soa incompleta ou adaptada, pois, se partirmos de uma relação estrita com a prática histórica, a busca dos alquimistas pela perfeição, sintetizada no ouro (ou Pedra Filosofal) parece distante das paisagens ruidosas e ruiniformes que povoam os filmes de Reble, realizados a partir de intervenções físicas, químicas e orgânicas no material fotoquímico, que é denegrido de sua forma primeira (REBLE, 1995). Por mais que existam nesses filmes temáticas de ordem espiritual, a constante iconografia de esfacelamento de imagens e a proliferação de ruídos do dispositivo que é realizada parecem difíceis de conciliar com o idealismo da alquimia.

Ao invés de abandonar a metáfora alquimica proposta por Habib como um todo, ancorados na insistência do próprio Reble em denominar sua prática como alquímica, encontramos uma possível conciliação ao observarmos outra apropriação do imaginário alquímico - não tanto no simbolismo de Rimbaud quanto originário no pensamento Batailliano, estudioso da alquimia (LEBEL; WALBERG; 1995) que cunhou um termo particularmente produtivo para discutir visualidades abjetas e miásmicas como as de Reble - o informe, agente de transubstanciação da forma rumo ao irreconhecível e, principalmente, de rebaixamento da mesma:



Allergic to the notion of definitions, then, Bataille does not rather give informe a meaning; he posits for it to undo a formal job: categories, to deny that each thing has its proper form to imagine meaning as gone shapeless… The boundaries of terms are not imagined by Bataille as transcended, but merely as transgressed or broken, producing formlessness through deliquescence, putrification, decay.

(KRAUSS, 1985, p.39)



O trabalho com opostos, estruturante da operação do informe, pode ser lido como uma releitura de uma das máximas da alquimia encontrada na Tabula Smeragadina: “ 'O que está em cima é semelhante ao que está abaixo e o que está abaixo é semelhante ao que está em cima’… A partir do princípio de que o mais alto provém do mais baixo e vice e versa, e de que tudo é obtido do único por meio da conjunção de opostos, a obra ‘alquímica', partindo da união do Sol com a Lua, engendra o sopro vital…" (GOLDFARB, 1987, p.25).

Antes da purificação, seria a transgressão da forma e a instabilidade do suporte os campos de ação de Reble - de fato, a alquimia prevê a degenerescência da matéria como uma de suas etapas iniciais, o Nigredo (GOLDFARB, 1987). Na arte moderna, no que se denomina "abstração informal", a operação informe se demonstra presente nas obras de Dubuffet e mesmo de alemães contemporâneos de Reble, como Beuys e Kiefer, cujas obras também referenciavam à alquimia (MÈREDIEU, 1994). A degradação da matéria em Reble, que, ao invés de obliterá-la, intensifica sua presença via o ruído, coloca-o, assim, em diálogo próximo da exploração da matéria feita por esses artistas, e o posiciona entre cinema, alquimia e o informe.
Bibliografia

BEAUVAIS, Y. Poussiere d’image: articles de films (1979-1998). França: Paris Experimental, 1998. 200p.



GOLDFARB, A. Da alquimia à química. Brasil: Nova Stella/EDUSP, 1987. 280p.



HABIB, A. Aura, destruction et reproductibilité numerique, 2008. Disponível em: . Acessado em: 12/05/2018.



KRAUSS, R. Corpus Delicti. October, EUA, vol. 33, pp.31-72.



LEBEL, R.; WALBERG, I (eds.). Atlas Archive Three: Encyclopaedia Acephalica. Inglaterra: Atlas Press, 1995. 173p.



MÈREDIEU, F. Histoire Matérielle & Immatérielle de l’art moderne. França: Bordas, 1994. 405p.



REBLE, J. Chimie, Alchimie des couleurs. In MCKANE, Miles; BRENEZ, Nicole (dir.). Poétique de couleur. Anthologie. Paris: Louvre/ Institut de l’image, 1995.

________. Les Champs de Perception. 1995. Disponível em: . Acessado em: 18/07/2016.