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  Título
O anacronismo nas montagens de "Tom Tom, the piper's son" (1905-2008)
Autor
Arthur Ribeiro Frazão
Resumo Expandido
“Tom, Tom, the piper's son” (1905) é um filme produzido pela Biograph Company e reempregado em uma série de trabalhos do cineasta nova-iorquino Ken Jacobs. Por um pouco mais de um século, as imagens de “Tom, Tom, the piper's son” atravessam diversos períodos da história do cinema, como o Primeiro Cinema, o Cinema Expandido e o vídeo, tecendo uma rede de formas não padronizadas do audiovisual. O primeiro filme realizado por Jacobs com estas imagens é o longa-metragem homônimo “Tom, Tom, the piper's son” (1969-1971). Entre os anos 1970 e 2000, o cineasta apresenta performances audiovisuais com um dispositivo de dupla projeção denominado Sistema Nervoso. Quatro destas performances foram realizadas com fragmentos do filme de 1905. Nos anos 2000, Jacobs dirige 3 filmes digitais com as imagens de “Tom, Tom, the piper's son”: o curta-metragem “A Tom Tom chaser” (2002) e dois longas-metragem, “Return to the scene of the crime” (2008) e “Anaglyph Tom” (Tom with puffy cheeks) (2008), este último produzido em 3-D anáglifo.

Uma análise que se restrinja apenas à recepção de uma obra em seu contexto de realização não leva em consideração a sobrevivência das imagens, a ideia de duração que nelas está contida. Como afirma Didi-Huberman (2015, p. 46), “em cada objeto histórico todos os tempos se encontram”. Para o autor, diante de uma imagem, nós, sujeitos, somos o elemento que passa. A imagem diante de nossa finitude é o que vai resistir, ela é a duração. Assim com Didi-Huberman (2015) defende uma abordagem para a história da arte que não seja plenamente anacrônica, o presente trabalho propõe um duplo movimento metodológico. Por um lado, entende-se a longa duração das imagens de “Tom, Tom, the piper's son” desde uma perspectiva contemporânea às imagens digitais. Por outro, pretende-se retomar o contexto de realização das obras audiovisuais em questão.

Nos filmes realizados por Jacobs com as imagens de “Tom, Tom, the piper's son” há a repetição de determinados procedimentos técnicos. Dentre eles, destacam-se a produção de efeitos de tridimensionalidade baseados na binocularidade e a cintilação de fotogramas. O primeiro procedimento remonta à estereoscopia, uma forma de entretenimento muito popular no século XIX. O segundo procedimento pode ser observado sob a ótica de diversas pesquisas científicas nos campos da fisiologia e da neurociência, que observaram a capacidade da luz estroboscópica de produzir visões e experiências sensoriais nos indivíduos expostos a tal condição (CANALES, 2011). Nos “flicker films”, a ilusão de continuidade da película é desfeita e o filme pode ser percebido na tela, não mais através da tela (MICHAUD, 2014). A experiência diante dos rastros de luz cintilantes de “Tom, Tom, the piper's son” se transforma de acordo com os contextos histórico-sociais, mas também pela percepção subjetiva. Os efeitos de cintilação das imagens e de tridimensionalidade, reiterados ao longo dos filmes e perfomances de Jacobs, são catalizadores deste tipo de experiência imprevisível e não delimitável, calcada no acaso e no efêmero.

O gesto anacrônico de Jacobs de remontar repetidas vezes às imagens e às tecnologias de projeção do passado se configura como um trabalho de escavação da história das imagens do cinema e da fotografia. Com isso, o cineasta não busca restituir a experiência integral destas imagens e tecnologias tal como foram consumidas na época de sua produção. O que surge deste trabalho não é idêntico à primeira aparição das imagens e dos dispositivos retomados por Jacobs. Nas novas montagens que se sucedem há uma constante atualização das virtualidades das imagens de “Tom, Tom, the piper's son” e das formas de experimentar o cinema. A repetição destas imagens resulta em uma montagem de longa duração (de 1905 a 2008). Deste modo, ao assistir aos filmes e performances realizados com as imagens produzidas pela Biograph Company, estamos diante do tempo, de várias camadas de tempo sobrepostas.
Bibliografia

CANALES, Jimena. “'A Number of Scenes in a Badly Cut Film': Observation in the Age of Strobe”. In: DASTON, Lorraine; LUNBECK, Elizabeth (eds.). Histories of Scientific Observation. Chicago: University of Chicago Press, 2011, p.230-54.



DELEUZE, Gilles. “¿O que és un dispositivo?”. In: Michel Foucault, filósofo. Barcelona: Editora Gedisa, 1990, p. 155-61.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: História da arte e anacronismos da imagem. BH: UFMG, 2015.



GUNNING, Tom. “The Cinema of Atraction[s]: Early Film, Its Spectator and the Avant-Garde”. In: STRAUVEN, W. (Ed.). The Cinema of Atractions Reloaded. Amsterdã: Amsterdam University Press, 2006, p. 381-8.



PARENTE, André. “Cinema em trânsito: do dispositivo do cinema ao cinema do dispositivo”. In: PENAFRIA, M.; MARTINS, I. M. (Org). Estéticas do digital: cinema e tecnologia. Covilhã: LabCom, 2007, p.3-30.



MICHAUD, Philippe-Alain. Filme: por uma teoria expandida do cinema. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.