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  Título
Um modo Elekô de pensar e fazer cinema
Autor
Luciana Oliveira Vieira
Resumo Expandido
Sem roteiro, cerca de 30 mulheres, sendo que 13 assinam a direção, todas elas mulheres negras, pensaram juntas as imagens, os figurinos e locações onde foi filmado o Elekô, tornando-se todas cineastas da mesma obra. Essa coletividade durante todo o processo fílmico é o que nomearei aqui como um modo Elekô de pensar e fazer cinema, uma maneira particular de construir narrativas que envolvem experimentação, respeito e afeto entre as mulheres do Coletivo Mulheres de Pedra, mas também com relação as mulheres que surgem nesses processos de criação e produção para contribuir nesse fazer e pensar.



Marco esse modo coletivo e horizontal de pensar e fazer cinema como um modo Elekô, por esse nome ser tão significativo na ancestralidade africana, especialmente para as mulheres negras. Elekô, na mitologia africana, se trata de uma sociedade Iorubá governada por mulheres, sendo sua líder maior Obá, orixá guerreira e caçadora. Essa orixá protegia sua comunidade e era responsável por seu gerenciamento. Ela convocava as mulheres para reconquistar o mundo . As Mulheres de Pedra trazem da ancestralidade africana essa articulação em comunidade, em trabalhar em conjunto para pensar e fazer cinema, fugindo as regras do que apresenta um formato já consolidado de fazer cinema, onde o centro é um único diretor.



A maneira Elekô de pensar e fazer cinema, numa condição descentralizada da figura de um único autor, reflete um pouco a maneira experimental com que a maior parte dessas cineastas iniciou na sétima arte. Apenas três dessas cineastas tinham contato com o fazer cinema antes de Elekô, são elas a Erika Cândido, Monique Rocco e Amanda Palma, as demais estavam experienciando pela primeira vez.



Havia uma horizontalidade que permitiu que essas mulheres pudessem pensar o cinema em conjunto, inserindo suas contribuições em cada parte do filme, a partir de suas experiências dentro de outras áreas das artes, são musicistas, poetas, performers, linguistas, dentre outras áreas ligada às artes. Essa multidisciplinaridade permitiu que o processo criativo do filme fosse intenso e repleto de riqueza visual, no sentido de que é possível observar e ouvir, através da combinação imagem e som, diferentes performances que se conectam e constroem o filme. As próprias cenas do filme, onde em sua maioria a mulher negra nunca aparece sozinha, sempre acompanhada por outras mulheres, se apoiando umas as outras, trabalhando ou celebrando, reforça essa ideia Elekô de pensar junto e fazer junto.



É nesta perspectiva que analisamos o curta-metragem Elekô (2015), a partir da Teoria dos Cineastas apresentada por Manuela Penafria, Thiago Piccinini e Ana Santos. Para os autores "um cineasta é todo aquele que contribui de modo relevante para a criação cinematográfica" (PENAFRIA;PICCININI; SANTOS, p. 332, 2015). Neste sentido, observamos o modo coletivo dessas cineastas fazer cinema e a partir dos seus próprios pensamentos, nesse caso específico a partir de seu discurso verbal, através do método de entrevista e da análise das imagens do próprio filme, compreendemos a teoria dessas cineastas sobre o cinema que desenvolvem.
Bibliografia

PENAFRIA, M.; SANTOS, A.; PICCININI, Thiago; Teoria do cinema vs teoria dos cineastas. 2015. Teoria do cinema vs teoria dos cineastas” In: Atos dos IV Encontro Anual do AIM, editado por Daniel Ribas e Manuela Penafria, 329-338. Covilhã: AIM. ISBN 978-989-98215-2-1.



TEIXEIRA, F. E. Cinemas “não narrativos”: experimental e documentário – passagens. São Paulo: Alameda, 2012



EVARISTO, C. Da representação a auto-representação da mulher negra na literatura brasileira. Revista Palmares: cultura afro-brasileira, Brasília, ano 1, ago. 2005. p.54.



SOUZA, E. P. de. Diretoras Negras: construindo um cinema de identidades e afeto. In: Catálogo Caixa Cultural Diretoras Negras no Cinema Brasileiro. 1ª edição, Rio de Janeiro, 2016.