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  Título
A figura da repetição no cinema: três momentos
Autor
Alexandre Wahrhaftig
Resumo Expandido
Um meio artístico fundado na duração, como é o caso do cinema, torna possível a existência da repetição em suas obras – os filmes. O termo repetição, contudo, soa bastante genérico se não melhor especificado. Sem uma restrição terminológica, ele pode ser aplicado para as mais distintas operações crítico-teóricas, servindo, por exemplo, tanto para o estudo dos gêneros cinematográficos – a repetição de temáticas e procedimentos estilísticos dentro de um mesmo gênero narrativo (como o western) – quanto para o estudo da materialidade fílmica – a repetição de fotogramas estáticos com sutis diferenças concretizando, na imagem, movimento e duração. Para além das questões intertextuais e materiais da repetição, deparamo-nos com a singularidade de filmes que, no interior de seu texto fílmico, exploram a figura da repetição. Se seguirmos as divisões propostas por Bellour (1979), em sua análise das “cine-repetições”, estaremos aqui diante de um tipo particular da “terceira repetição interna” ou repetição textual, um tipo que poderíamos chamar de repetição “intra-textual”.

Uma abordagem possível de tal repetição poderia começar, seguindo um fio histórico, pelo primeiro cinema. O advento do corte no cinema, da montagem entre planos, deu vazão a diferentes lógicas de articulação espaço-temporais no primeiro cinema, dentre as quais uma pode ser vista exatamente como a "lógica da repetição", segundo Mary Ann Doane (2002, p. 187). O filme Life of an American Fireman (1903), de Edwin Porter, fornece um exemplo significativo: a cena principal, em que um bombeiro entra em um prédio em chamas para resgatar pessoas presas, é mostrada duas vezes, integralmente, por dois pontos de vista distintos. Em retrospecto, tal lógica soa como uma antilógica narrativa, uma violação das regras de construção espaço-temporais. Tais "regras", contudo, sequer haviam sido formuladas: pensar em violação seria um anacronismo. O que existe, positivamente, é uma literalidade na representação temporal.

Em um salto para as vanguardas da década de 20, encontramos a repetição como figura constante da linguagem poético-musical de muitos filmes. O caso de Balé mecânico (1923-4), onde um determinado plano de poucos segundos de uma mulher subindo uma escada é repetido inúmeras vezes, aponta para um outro caráter da repetição. Fernand Léger escreve, especificamente sobre tal sequência, que sua intenção era inquietar o público e levá-lo à exasperação (1989, p. 160–1). Da literalidade de uma representação temporal, passamos para uma certa agressividade formal.

Em ambos os casos, com suas significativas diferenças, a repetição se manifesta em fricção com o desenvolvimento linear temporal. Ela impõe o retorno enquanto princípio de organização temporal dos eventos no filme; um retorno não justificado pelos parâmetros narrativos tradicionais, cujo caso mais canônico seria o do flashback, e um retorno que inclusive representa uma agressividade dentro da própria poética de vanguarda dos anos 20.

Não é surpresa, portanto, encontrarmos a figura da repetição qualificada, em formulação de Luc Moullet, como uma das características centrais da modernidade cinematográfica. A repetição de que fala Moullet é aquela que possibilita ao cinema moderno justificar sua “missão” de “fazer com que se aceite a noção de duração”; e que possibilita, pela estagnação das personagens, “verificarmos se o realizador, privado do álibi da evolução anedótica das personagens, é capaz ou não de evoluir ele mesmo” (1969, p. 61).

Cabe indagarmos, com base na afirmação de Moullet, a possibilidade de um atravessamento histórico da manifestação da figura da repetição através do primeiro cinema, das vanguardas dos anos 20 e do cinema moderno. Nesse sentido, estabelecer as diferenças e semelhanças da repetição moderna em relação às repetições do primeiro cinema e das vanguardas é estimulante para uma investigação desse procedimento formal à luz da história.
Bibliografia

BELLOUR, R. Cine-Repetitions. Screen, v. 20, n. 2, p. 65–72, verão 1979.

DANEY, S. A rampa. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

DOANE, M. A. The emergence of cinematic time: modernity, contingency, the archive. Cambridge, London: Harvard University Press, 2002.

DUBOIS, P. Cinema, vídeo e Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

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KUENZLI, R. E. (org.). Dada and Surrealist Film. [s.l.] MIT Press, 1996.

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MOULLET, L. Entretien aven Luc Moullet. Cahiers du Cinéma, n. 216, p. 40–49; 56–62, outubro 1969.

XAVIER, I. Sétima arte: um culto moderno. São Paulo: Perspectiva, 1978.