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  Título
“¡Escándalo!” e “A última noite” ou Pode o cinema ser levado a sério?
Autor
Luís Rocha Melo
Resumo Expandido
Em comunicações anteriores apresentadas neste Seminário Temático, propus estudos comparados entre filmes chilenos e brasileiros dos anos 1940-50. No primeiro deles, discutiu-se a ilusão industrialista a partir de “La Dama de las Camelias” (José Bohr, 1947) e “Carnaval Atlântida” (José Carlos Burle, 1953). No segundo, a propósito de “Hollywood es así” (Jorge Délano, 1944) e “Berlim na batucada” (Luiz de Barros, 1944), foram examinadas diferentes representações de Hollywood. Dando continuidade às investigações desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa Historiografia Audiovisual, financiado pelo CNPq e pela Fapemig, a presente comunicação propõe como estudo de caso o longa chileno “¡Escándalo!” (Jorge Délano, 1941). Contudo, parto aqui de um impasse: nessa película, a representação que se faz do cinema não oferece termo de comparação com nenhum filme brasileiro dos anos 1940-50.



O que torna “¡Escándalo!” um filme singular é que sua trama – que mescla melodrama, comédia romântica, musical, suspense e intriga política sem se prender a nenhum desses gêneros – é entremeada por aparições do próprio Jorge Délano rodando algumas das cenas que estão sendo representadas para o espectador. Realidade e ficção se confundem. O “filme dentro do filme” promove sucessivas camadas de interpretação sobre o que vem a ser o próprio cinema. Como diz um dos personagens da equipe de filmagem: “La vida real es una ficción, es una gran película de lo que llamamos destino; farsa, todo farsa. La verdad permanece entre sombras, oscuro.”



A cinematografia chilena desse período contempla ao menos dois títulos que tematizam o cinema mas fogem ao estritamente cômico: além de “¡Escándalo!”, temos o caso de “El ídolo” (Pierre Chenal, 1952), sem falar de “Hollywood es así”, que resvala em muitos momentos para o drama. Já no caso brasileiro, chama atenção a ausência da representação desta atividade, mesmo que de forma indireta, em filmes dramáticos dos anos 1930-50. Seria o cinema uma atividade indigna de ser representada em filmes sérios? Ou, contrariamente, uma atividade séria demais para ser figurada pelo cinema brasileiro?



Em “¡Escándalo!”, todas as vezes em que a equipe cinematográfica surge e a ilusão diegética é rompida, há uma espécie de “alívio cômico”. Ainda assim, não se verifica uma atitude de “autodegradação” e “desprezo”, como afirmam Bernardet (2009, p. 117) e Autran (2013, pp. 226-227) a propósito do cinema brasileiro. No filme de Délano, o cinema pode até ser uma atividade de “loucos”, mas efetivamente é através dele que sonhamos, choramos, sorrimos ou gargalhamos. “¡Escándalo!” é, nesse sentido, um elogio ao cinema.



Em contraponto a “¡Escándalo!” apresento não um filme, mas um roteiro: “A última noite”, escrito por Alex Viany em 1949 a partir de uma ideia original de Salomão Scliar. Trata-se de um drama inteiramente passado nos bastidores de um teatro, durante uma noite de ensaio da peça “Teresa Raquin”, baseada no romance de Émile Zola. Como em “¡Escándalo!”, ficção e realidade se misturam. Ao longo do ensaio, revela-se um triângulo amoroso entre os atores, há uma tentativa de assassinato por envenenamento, e um velho ator, mudo e enlouquecido, planeja vingar-se de sua ex-mulher, uma grande dama do teatro que interpreta Madame Raquin. Nas palavras de Viany, o roteiro – que jamais foi filmado – era “todo baseado em Orson Welles” (ALEX VIANY..., 1990). De fato, o argumento prevê câmera subjetiva, profundidade de campo, closes expressionistas, luzes recortadas, bem como o uso de espelhos e a distorção de imagem (“escorço”).



Trata-se de um projeto que pouco tem a ver com a defesa de um cinema nacional-popular, defendido por Viany a partir de 1950, mas que revela um enorme desejo de explorar as possibilidades da linguagem cinematográfica. No entanto, sintomaticamente o roteiro não se passa no cinema e sim no teatro. Retomando a pergunta anterior, seria a arte teatral, ao contrário do cinema, “nobre” o suficiente para figurar em um drama?
Bibliografia

ALEX Viany – Um documentário em vídeo (dir.: Luís Alberto Rocha Melo e Carlos Bittencourt Paiva, Brasil, vídeo, 42 min., cor, 1990)

AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2013.

BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Cia. de Bolso, 2009.

“ESCÁNDALO”. Ecran, n. 492. Santiago: 25 jun 1940. Disponível em: http://www.cinechile.cl/archivo-692. Acesso em 10 maio 2018.

MORALES C., Marcelo. “El ‘Escándalo’ de Jorge ‘Coke’ Délano”. Cinechile, Enciclopedia del Cine Chileno. Santiago: 20 dez 2011. Disponível em: http://www.cinechile.cl/crit&estud-188. Acesso em 10 maio 2018.

MOUESCA, Jacqueline e ORELLANA, Carlos. Breve historia del cine chileno. Desde sus orígenes hasta nuestros días. Santiago: LOM Ediciones, 2010.

VIANY, Alex. “A última noite”. Argumento cinematográfico (datil). S. local: 21 fev 1949, 16 p. Disponível em https://www.alexviany.com.br/busca/visualiza_item.php. Acesso em 10 maio 2018.