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  Título
No intenso agora: rastros e restos na história a contrapelo de 1968
Autor
Rafael de Souza Barbosa
Resumo Expandido
“Ao choque do encontro inesperado sucede a inefável emoção da forma inusitada”. A frase escrita por Elisa Gonçalves, em um dos seus diários de viagem, descreve sua passagem com um grupo de amigos pela China, em 1966, durante a fase inicial e manifestadamente mais forte da Revolução Cultural. Elisa era mãe do produtor e diretor João Moreira Salles. Foi ao revisitar os arquivos de sua família que ele descobriu dois rolos de filmes 16 mm feitos de modo caseiro por sua mãe, posteriormente transformados no ponto de partida para o documentário No intenso agora (2017). Às cenas da China somam-se imagens dos eventos de 1968 na França, na Tchecoslováquia e no Brasil, em menor medida.



“O que se pode dizer de Paris, Praga, Rio de Janeiro e Pequim a partir das imagens daquele período? Por que cada uma dessas cidades produziu um tipo específico de registro”, questiona a sinopse do filme. Acrescentaríamos ainda: como o político e o pessoal se misturam na obra de João Moreira Salles? Que lacunas se forjam no choque desse encontro inesperado? Essas são algumas indagações que propomos analisar. Amparados em uma generosa dose pelas acepções do próprio diretor que, em No intenso agora, investiga a natureza do material de arquivo e imprime, em seu filme-ensaio, questões que flertam diretamente com a produção teórica de Walter Benjamin, principalmente em relação às ideias de testemunho, rastro, memória e imagem dialética. Buscamos estabelecer essa interlocução entre o pensamento benjaminiano e a obra posta em análise ancorados nos estudos de Didi-Huberman e Jeanne Marie Gagnebin.



Para João Moreira Salles, a função do documentário reside na tensão da fronteira. O grande documentário é aquele que amplia a gramática do cinema e a torna mais complexa. Como trapeiro das imagens, João Moreira Salles inscreve em No intenso agora a inquietação com o passado na sua lida com o presente e busca, ao revisitar as imagens de arquivo – mormente os registros amadores – contar a história a contrapelo, ao dar espaço e voz aos vencidos, aos esquecidos, abrindo a história para a pluralidade.



O diretor expõe 1968 e, com isso, perturba o presente. Perturba porque ao escavar o passado encontra vestígios em tempos atuais, e o faz sem temer abalar as construções ali edificadas. Trazer o passado à luz do presente ganha, assim, matizes diferentes de acordo com o contexto cultural do “presente” que o interroga. Inevitavelmente, incita comparações com os eventos que transcorrem no contexto atual desse “presente” ou, sob o efeito de suspensão, com aqueles que deixaram marcas indeléveis na história, como as Primaveras Árabes – na Tunísia, no Egito, na Líbia e na Síria –, o movimento Ocupe Wall Street, nos Estados Unidos, ou as manifestações de junho de 2013, no Brasil.



No intenso agora mistura imagens de documentários, televisão, fotografia, arquivos de áudio e imagens amadoras. É por meio dessas imagens diletantes que a voz over do diretor se detém em vasculhar os frames à procura de rastros e restos desse passado que “não foi feito para a história”, como os diários audiovisuais da mãe, ou “filmados com urgência” pela imposição da ação presente, como as imagens captadas na Primavera de Praga, na então Tchecoslováquia. É também a voz over que materializa o conceito benjaminiano do narrador como a figura do trapeiro. A ele cabe a missão de não deixar o passado cair em esquecimento, como diria Herótodo. Os arquivos amadores utilizados em No intenso agora não pertencem a priori à história oficial. São fragmentos passados postos no presente em colisão com sua “história anterior” e, sobretudo, com sua “história ulterior”.



Para o sociólogo francês Edgar Morin, que acompanhou os desdobramentos de maio de 1968 em sua terra natal e em seguida veio ver as passeatas no Brasil, seriam necessários anos para se entender todo aquele movimento. Já se passaram meio século e 1968 permanece, na expressão de Umberto Eco, uma obra aberta.
Bibliografia

CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio: desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do Tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2015.



______. Imagens Apesar de Tudo. Traduzido por Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2012.



GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.



RANCIÈRE, Jacques. Figuras do testemunho e democracia. Entrevista, por Maria-Benedita Basto. In: Revista Intervalo – O Testemunho, Lisboa, n. 2, maio de 2006. p.177-186.



RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007.



SALLES, João Moreira. “A dificuldade do documentário”. In: MARTINS, José Souza; ECKERT, NOVAES, Cornelia; NOVAES, Sylvia Caiuby (orgs.). O imaginário e o poético nas ciências sociais. São Paulo: Edusc, 2005. Cap. 03, p.57-71.



SEDLMAYER, Sabrina; GINZBURG, Jaime (org.). Walter Benjamin: rastro, aura e história. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2012.