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  Título
Os símbolos em A forma da água: uma mitocrítica de gêneros
Autor
Esmejoano Lincol da Silva de França
Resumo Expandido
O longa-metragem A forma da água (2017), de Guilhermo Del Toro, ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2018, estrutura sua narrativa em um arcabouço de arquétipos e símbolos presentes em nosso imaginário coletivo. Não que outros filmes não o façam: nos mais simples enquadramentos plongeé ou contra-plongée, conseguimos captar a ideia de ascensão e de queda, de poder e de submissão de um personagem, a partir do momento em que nosso cérebro consulta em seu baú simbólico os chamados schemes, ideias ancestrais presentes em nosso corpo, ou na natureza, que sedimentam este nosso imaginário.



No entanto, em A forma da água, estes arquétipos e símbolos não apenas compõem a história contada por Del Toro, mas constituem também uma outra narrativa dentro da história principal, uma narrativa sublimar. Esta pesquisa pretende, primeiro, catalogar cada um destes elementos simbólicos na narrativa por trás da narrativa principal do filme em questão nos dois regimes distintos das imagens, propostos pelo teórico Gilbert Durand e revistos mais tarde por Danielle Pitta: o diurno, o polo das tensões, que agrupa os símbolos do gênero masculino; e o polo noturno, o da conciliação, que agrupa os símbolos do gênero feminino.



Segundo, a partir da delimitação de cada um desses polos e do choque isomórfico de seus simbolismos, inferiremos que essa luta arquetípica sublimar contribui para enriquecer a luta que acontece no plano da narrativa principal, entre os personagens de Elisa, mocinha da história, e o de Richard Strickland, o vilão, que estão à frente dos polos masculinos e femininos do filme.



Para desenvolver estre trabalho, numa abordagem qualitativa, além da análise fílmica, pautada no campo da significação, com o apoio de Bertrand Lira (2013) e Christian Metz (1977, 1980), utilizaremos as teorias do imaginário capitaneadas por Gilbert Durand (2004) e na mitodologia, proposta do mesmo autor e que mais tarde foi revisitada por Danielle Pitta (2017). Nossos esforços se concentrarão no desenvolvimento de uma mitocrítica, “análise de uma obra ou de um texto (inclusive história de vida) a partir das redundâncias que remetem aos mitos diretores em ação” (Durand citado por Pitta, 2017, p. 39). O trabalho de Marcus Throup (2011) nos ajudará a sedimentar a análise desta pesquisa tanto no plano da decomposição dos simbolismos, quanto no uso destes simbolismos decompostos no campo cinematográfico.



Pinçando um exemplo de uma destas análises, a água, que está presente, inclusive, enquanto vocábulo no título do filme, expõe sua dualidade simbólica a partir de sua presença em certos locais e em certos momentos do dia na narrativa. A água escura, parada, donde podem emergir as mais diversas entidades maléficas, é represada num tanque sinistro de um laboratório, que está sob a vigilância no vilão Richard.



Enquanto isso, a água límpida, cálida, onde a personagem Elisa pode realizar sua sexualidade, está represada numa banheira, numa simbologia que remete à ideia de taça, receptáculo, intimidade. Neste polo, “(...) a imagem do movimento de ondulação faz com que as ondas da água vão remeter às ondas dos cabelos, cabelos longos, femininos, que por sua vez se ligam à dimensão de feminidade da água, das imagens todas convergindo também em torno da passagem do tempo, passagem das águas do rio, que vão e nunca voltam” (Pitta, 2017, p. 25).



Metz atenta para o fato de que “o simbólico não é suficiente para produzir um conhecimento (...). Todavia, é na sua esteira que se se situa a esperança de um pouco mais de saber, é um de dos seus avatares que nos introduz no compreender (...)” (Metz, 1980, p. 10). Sendo assim, ao catalogarmos e decompormos os simbolismos presentes no longa de Del Toro, estaremos inserindo esses símbolos no campo da gênese da produção de sentido – do mesmo modo que propõem as teorias do imaginário que sustentam o nosso trabalho.
Bibliografia

LIRA, Bertrand. Luz e Sombra: significações imaginárias da fotografia do cinema expressionista alemão. João Pessoa: Editora da UFPB, 2013.



DURAND, Gilbert. O imaginário: ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Tradução de Renée Eve Levié. 3ª ed. Rio de Janeiro: Defiel, 2004.



METZ, Christian. A Significação no Cinema. Tradução de Jean Claude Bernardet. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1977.



______. O significante imaginário: psicanálise e cinema. Tradução de Antônio Durão. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.



PITTA, Danielle. Iniciação à teoria do imaginário de Gilbert Durand. 2ª ed. Curitiba: CRV, 2017.



THROUP, Marcus. A Simbologia religiosa da água nas mitologias do antigo Oriente Próximo: da mitocrítica à mitanálise. In: Revista Religare, João Pessoa, vol. 8.2, páginas 193-200, out. 2011. Disponível em: http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/religare/article/view/12502/7249. Acesso em 1º de maio de 2018.