Voltar para a lista
 
  Título
Abstração e Memória no Cinema Brasileiro Contemporâneo
Autor
Denise Trindade
Resumo Expandido
A cineasta Paula Gaítan realiza em seus filmes obras que alternam passado e presente, vivido e imaginado, por meio do vídeo em uma relação com as artes plásticas. Ao intervir na própria natureza de uma imagem documental, ela recria atmosferas intervindo em imagens do passado, como no filme Diário de Sintra (2010) no qual vemos fotos de Glauber Rocha que brotam nos galhos de uma árvore ou quando ela dispõe uma fotografia do cineasta em meio às ondas, e em voz off diz: “Do oceano, entra em cena uma miragem”. Julia Murat, em seu primeiro filme “Histórias que só existem quando lembradas” (2011), utiliza imagens produzidas por meio de pin-hole, utilizando uma técnica artesanal no filme digital, enfatizando que além da cena ou do retrato, uma foto registra a própria inscrição do tempo. A imagem de uma personagem idosa projetada sobre um muro com fungos, é uma inscrição cinemática na qual o tempo é o protagonista. Em “Aboio” (2005) de Marília Rocha, câmeras velozes retratam paisagens intensificadas por tons sépia e estouradas, alternadas por imagens coloridas e abstratas em que o céu é o limite, interrompem os relatos dos vaqueiros do sertão. Seja nas fotografias ampliadas, recortadas, em detalhes, seja no giro das imagens em movimento, a memória irrompe em brechas temporais, unindo passado e presente. Ao evocarem todos os tempos, como os das narrativas imemoriais, sagradas e filosóficas, entre silêncios e cantos um sertão antigo se confunde ao atual. Por vezes factuais, por vezes imaginárias e literárias, os relatos dos vaqueiros reconfiguram sua beleza e a magia em camadas de sons e imagens em sua plasticidade.

Philipe Dubois ao aproximar plasticidade e figural aponta que nossa memória e percepção são marcadas por acontecimentos de imagens nos quais a imagem fílmica nos atingiria mais pela potencia de sua abordagem plástica, da ordem do afeto, que de sua dimensão narrativa, tornando presente a força intrínseca da matéria da imagem.

Deleuze, em a Lógica da Sensação diferencia figural e figurativo, afirmando que o figurativo implica na relação de uma imagem a um objeto, que ela é encarregada de ilustrar e narrar, realizando assim o objetivo da representação, e o figural ocorre como um corte nesse objetivo, procurando afirmar, através da relação de uma imagem com outras imagens, o que ali escapa ou tende a escapar.

Os detalhes figurais de Rocha assim como as paisagens abstratas de Gaítan e Murat apresentam-se assim como fissuras nas narrativas figurativas por onde a memória escapa como presença intensiva da matéria.
Bibliografia

BELTING, H. Antropologia de la Imagen. Buenos Aires. Katz Editores.2007.

BELLOUR, R. Entre-Imagens - Foto, Cinema, Video, São Paulo. Ed. Papirus, Brasil, 1997.

DIDI-HUBERMAN, G. Devant l’image.Ed.Minuit.Paris.1990.

Sobrevivência dos Vagalumes. MG. UFMG. 2011.

DELEUZE, Gilles. Francis Bacon. Lógica da Sensação. RJ. Jorge Zahar. 1995.

DUBOIS, Philippe. Cinema Video Godard. SP. Cosac Naif. 2004.

Plasticidade e Cinema: a questão do figural. In HUCHET, Stéphanie. (Org.) Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo. Edusp. 2012.



HUYSSEN, A. Culturas do passado-presente. Modernismos, artes visuais, políticas da memória. Contraponto. RJ. 2014.

MALRAUX, A. O Museu Imaginário. Edições 70. PT. 2013.

MICHAUD, P.A. Aby Warburg e a Imagem Movimento. RJ. Contraponto. 2013.

RICOUER, P. A memória, a história, o esquecimento. SP. Ed.UNICAMP. 2007.

SENRA, Stela. A parte do segredo: Diário de Sintra e a interlocução do cinema