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  Título
Imagens-espaço: uma forma alternativa de análise espacial fílmica
Autor
diogo cavalcanti velasco
Resumo Expandido
Pensadores da teoria cinematográfica, como Noel Burch, Jacques Aumont e Rudolph Arnheim, traduziram o espaço como uma dimensão possível de ser representada pelo cinema. Se pensamos no sertão nordestino, por exemplo, e escolhermos ele como locação, o que se estudava por eles eram as formas pelas quais teríamos as sensações de estarmos ali, ou de como ele pode ser um palco para uma ação, ou como os processos cinematográficos o espacializava por meio da montagem e encenação, de modo a construí-lo fisicamente, imobilizando-o e determinando-o. Ou seja, o espaço cinematográfico não era pensado como algo que poderia ter constituição própria e dinâmica. Ele estava ali, encerrado, posicionado, e suas questões giravam em torno de como ele era apreendido e traduzido cinematograficamente. Montar ou encenar, por exemplo, eram procedimentos estéticos que construíam espacialidades por meio da contiguidade, continuidade, planificação, etc... Diversos mecanismos dentro dessas duas formas de espacializar transfeririam a locação para a imagem. No entanto, o espaço é algo maior, e por isso devemos mudar a forma de compreendê-lo. Ele, também cinematográfico, não pode ser pensado apenas na sua dimensão física, mesmo que ela exista e seja fator importante para a sua análise. O constructo que parece estável, imóvel, sempre tem a ver com um processo que nunca se acaba. Ele só aparenta uma fixidez, por isso irrepresentável. Colocar uma câmera em plano geral no Catimbau, depois focar uma casa em sua vastidão e terminar com um plano médio de um sertanejo saindo pela porta, não é inventar e fazer perceber onde estão seus agentes, construir um espaço definitivo. É uma imagem indireta de sua produção contínua espacial, dentro de uma dimensão estética, por exemplo. Da mesma forma, colocá-lo como representante da discussão de problemas sobre o Brasil não pode ser pensado apenas como tema, como indicativo de discussão política, mas como modo de se fazer entrever o processo espacial também no cinema por sua dimensão social. As suas dimensões nunca estão esgotadas, são plurais na construção do espaço. Elas se tornam agentes importantes para a visibilidade do processo, para o devir em cada um dos seus cortes produzidos. Queremos dizer com isso que uma dimensão não exclui a outra, apenas agem de forma simultânea e coetânea, na interrelação.

Pensar o espaço geográfico dessa forma (MASSEY, 2009) e sua espacialização no cinema é construí-lo por meio dos seus agentes, das suas dimensões diversas, na simultaneidade e em suas relações. Num processo ininterrupto, seus elementos são atuantes e se colocam em relação a fim de uma produção de espacialidades, que não são um todo, mas suas imagens. Elas são cortes móveis que estão para explodir, como elétrons de um átomo que podem se chocar, e produzir inúmeros novos espaços. Estão ou em direção a espaços-ação, tão bem organizados pelos espaços-perceptivos, se proliferando nos espaços-afetivos entre um e outro, ou se constroem por meio de espaços-quaisquer (desconectados, vazios, fragmentados, cristalizados e naturezas mortas). Quem sabe existam outras formas a serem vistas e analisadas. No entanto, são essas imagens-espaços que dão a dinâmica contínua de expressão de um todo espacial, direta e indiretamente. Por meio dessa nova compreensão espacial, uma nova forma de análise cinematográfica se dá em busca dessas imagens-espaço.
Bibliografia

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ARNHEIM, rudolph. A arte do cinema. Lisboa: Edições 70, 1989

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MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.

MACHADO, Wenceslao Jr. Vídeos, Resistências e Geografias Menores… Terra Livre, São Paulo, v. 1, n.34, 2010.