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  Título
Esconder e revelar: narrativas do corpo no Super 8 experimental
Autor
Christiane Quaresma Medeiros
Resumo Expandido
Ao traçar uma linha do tempo da imagem do corpo, Viviane Matesco (2009) privilegia cinco recortes sócio-históricos, que vão da arte clássica grega à arte contemporânea. Aqui, destacamos as reconfigurações operadas na representação do corpo a partir da arte moderna. Eliane Robert Moraes (2002) analisa a multiplicidade de orientações que podem ser observadas nesse contexto. “Fragmentar, decompor, dispersar: essas palavras se encontram na base de qualquer definição do “espírito moderno”” (MORAES, 2002, p. 56).



Ao pensar o papel do cinema nesse contexto, à princípio, pode parecer que este cumpre evidenciar um corpo inteiro, intacto, no universo da representação visual. No entanto, é importante observar que o cinema, desde o princípio de sua história, incorpora e dá continuidade a muitos dos paradigmas que surgiram no campo da arte, e inclusive da arte moderna. Basta lembrar que artistas das vanguardas incorporaram o dispositivo em trabalhos que empreendiam a distorção e a fragmentação do corpo, bem como filmes que usavam o dispositivo cinematográfico para representar, não o corpo, mas pintura abstrata.



A pluralidade do cinema está, assim, atada à flexibilidade própria de seu aparato técnico, passível de ser inserido em um grande número de campos de representação, com paradigmas próprios e, consequentemente, gerar uma enorme quantidade de cinemas possíveis. O cinema de animação, nesse contexto, é uma arte que surge a partir do dispositivo técnico do cinema, porém, combinando dois fatores que alteram completamente a natureza da representação que é possível se obter, são eles: o hibridismo do aparato técnico do cinema com outras artes de representação; e o tratamento dado ao aparelho “câmera filmadora”. No primeiro ponto, temos que animação agrega a pintura, a ilustração, a escultura, etc., abrindo mão da representação de natureza fotográfica. O segundo ponto implica em abrir mão da principal potencialidade da câmera filmadora, que é a filmagem.



No que cabe a representação do corpo, animação cumpre um papel dúbio e contraditório de revelar e esconder. Um exemplo pode ser observado no filme Valsa com Bashir (2008). Os entrevistados são soldados israelenses que contribuíram com um massacre contra os palestinos. O processo filmado da câmera expõe, desnuda, e o desenho é, nesse sentido, um elemento atenuante dessa violência. E nesse caso, não só da violência do conflito representada. A animação esconde o verdadeiro rosto das vozes que tiveram participação numa guerra extremamente desproporcional. Agora, animados, podem narrar o massacre que ajudaram a causar através de seus duplos, personagens desenhados.



Assim como na potencialidade da arte moderna de representar subjetividades, aí está o que a arte da animação permite revelar: sutilezas e subjetividades (das emoções, da memória, da embriaguez, etc.). À animação, cabe todo o corpo que não pode ser atuado e captado por um dispositivo de natureza fotográfica, cabe toda essa idealização do corpo, desde a encenação de suas potências mais difíceis até a ultrapassagem dos limites da corporeidade. A animação cartoon seria um exemplo nesse sentido, onde o corpo enfrenta os limites da própria morte na encenação de um corpo infalível e que pode tudo.



Os filmes aqui destacados fazem parte de um contexto de produção bastante específico: são filmes nacionais, produzidos em super 8 e em sua maioria animados. As abordagens que seguem tratam de posicioná-los numa linha de revelação, que vai do corpo extremo de O rei do cagaço (1977), de Edgar Navarro, ao corpo ausente de Na pele (1979), de Firmino Holanda, passando pela massa intermediária que existe entre estes dois filmes, onde opera-se o corpo por processos que aqui entende-se como sendo de desconstrução, substituição e transformação, são eles: Sessão da tarde (1976), de Angelo Marzano; Ginástica Latina (1979), do artista plástico Moyses Baumstein; Vendo/Ouvindo (1972), de Lula Gonzaga e Em quadrado (1981), de Leontino Eugênio.
Bibliografia

ADRIANO, Carlos; VOROBOW, Bernardo. Peter Kubelka: A essência do cinema. São Paulo: Edições Babushka, 2002.



BATAILLE, Georges. O ânus solar. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.



BAZIN, André. O cinema: Ensaios. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.



DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.



MACHADO, Rubens. O inchaço do presente: experimentalismo super 8 nos anos 1970. FilmeCultura, nº54, p. 28 a p. 32, maio 2011.



MATESCO, Viviane. Corpo, imagem e representação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.



MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002.



PARENTE, André. A forma cinema: variações e rupturas. In: MACIEL, Katia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2009.



QUARESMA, Christiane. Animação experimental no super 8 brasileiro. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Artes e Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Recife, 2016.