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  Título
ESPAÇO, TEMPO E TECNOLOGIA EM 2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO
Autor
João Guilherme Barone Reis e Silva
Resumo Expandido
Após 50 anos de seu lançamento mundial no circuito de salas, em abril de 1968, 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, Stanley Kubrick, 1968), permanece como referência de um novo padrão estético, narrativo e sobretudo tecnológico para os filmes de ficção científica. Reverenciado pela crítica como um poema visual, enigmático e subjetivo, a obra de Kubrick inaugura a era do realismo científico e tecnológico do cinema das visões do futuro, das viagens espaciais e criaturas extraterrestres. Com 2001, Kubrick ultrapassa os limites de sua intenção declarada de “fazer um filme de ficção científica que não seja lixo”, alcançando um resultado que transformaria de forma absoluta os padrões dos filmes do gênero realizados desde então. Esta comunicação é o relato de um experimento que consiste em revisitar 2001 para verificar como as relações de espaço e tempo construídas no filme- pela via da tecnologia- transbordam para o campo do cinema, estabelecendo um marco que corresponde a uma reescritura do gênero e, simultaneamente, a um bias tecnológico. Pensar o ambiente tecnológico da obra como um bias, na acepção de Harold Innis, e buscar evidências de contribuições para a expansão do específico do cinema como matriz do audiovisual é o que conecta este experimento ao projeto de pesquisa Interseções tecnológicas, espaço e tempo. O bias do audiovisual. Nesta investigação, em andamento no Laboratório de Pesquisas Audiovisuais, LaPav, ligado ao PPGCOM da FAMECOS e sediado no Centro Tecnológico Audiovisual do RS, TECNA, da PUCRS, são retomados os enunciados de Innis para uma aplicação no cinema e no audiovisual. No projeto atual, o objetivo central está relacionado a identificar e analisar as relações de espaço e tempo no cinema (e posteriormente no audiovisual), a partir de interseções tecnológicas que atuam como determinantes de padrões que se alteram em função de variáveis dos aparatos tecnológicos. Ao lado da inspiração teórica de Innis, há contribuições igualmente importantes de Gilbert Cohén-Seat, cujos pressupostos da configuração do campo cinematográfico, a partir de vetores sociais, técnicos e econômicos, foram retomados por Metz nas delimitações do que seria o específico do filme e que o diferencia do que seria o cinema como um vasto território a ser explorado nas suas dinâmicas relacionadas ao extra fílmico. Assim, o desafio do experimento proposto, está em analisar as mediações tecnológicas que sustentam o sentido e a forma de 2001. Há evidências de que se a escolha de Kubrick para a elaboração do roteiro em parceria com Arthur C. Clarke trouxe uma grande carga de precisão científica ao filme, eliminando um grau de fantasia herdado da literatura de Júlio Verne, por exemplo, ao mesmo tempo gerou a necessidade de grande precisão no suporte técnico-científico na construção dos cenários, em busca de um realismo jamais alcançado em filmes anteriores do gênero. Uma equipe da NASA e de outras empresas que trabalhavam no programa espacial norte americano atuaram diretamente na produção. O resultado é que os ambientes tecnológicos de 2001 são marcados pelo extremo rigor científico, potencializado pelo perfeccionismo de Kubrick. Sem a precisão científica e o realismo tecnológico impactante, qual seria o sentido e a forma de uma obra como 2001? As relações de espaço e tempo, no específico do cinema, são construções que atuam de forma cognitiva no indivíduo e que não podem prescindir de uma mediação tecnológica que se configura no essencial do cinema. Na montagem, como ideia e práxis, mas também no ambiente tecnológico dos filmes. Essa construção, como afirma Burch, se estabelece pelo corte da câmera e o corte da edição. No caso de 2001, em que a narrativa está construída por deslocamentos espaciais e temporais de grande amplitude, dialogando com a trajetória da civilização como a conhecemos, parece oportuno propor novas questões sobre o primado de um ambiente tecnológico no e do cinema.
Bibliografia

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