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  Título
A Poética do Espaço em Quando eu Era Vivo
Autor
Nílbio Thé
Resumo Expandido
A direção de arte sempre teve como função dar verossimilhança visual à narrativo de um filme, criando stimmung e explicando sua diegese para o espectador. Ela pode criar universos inteiros, reconstruir épocas passadas ou enfatizar elementos da realidade. No caso do filme de Marcus Dutra Quando eu era vivo (2014) cuja direção de arte é assinada por Luana Demange, a produção de objetos contribui para contar a história das modificações pelas quais o protagonista passa no decorrer do filme. A história começa quando Júnior vai passar um tempo indeterminado, mas a princípio curto, no apartamento do pai após sua separação. Lá percebe que todos os objetos que lembravam sua falecida mãe estão escondidos ou guardados e a decoração da casa não é mais como era antes lhe incomodando imensamente. A personagem começa a explorar, então, cada vez mais esse passado que o pai se recusa a lembrar. A dinâmica da casa está tão diferente que Júnior sequer tem um quarto seu, já que seu antigo cômodo fora alugado para uma estudante de música, se instalando assim no quarto dos fundos onde ele tem acesso a caixas de memorabilia de sua infância. Ao compor uma casa de classe média comum, a diretora de arte Luana Demange dá ênfase ao ordinário e ao cotidiano, à desordem diária de uma casa sem atrativos. Sob essa perspectiva, o espectador se depara com elementos mundanos como potes de suplementos nutricionais, uma esteira de corrida no meio da sala, pilhas de papéis e sacos plásticos emoldurando toda a ação do filme. Os objetos que cercam Júnior criam um stimmung determinado. À medida que ele paulatinamente vai descobrindo objetos antigos, toda a atmosfera do filme também muda no mesmo ritmo de suas descobertas. Esses objetos lentamente vão voltando a compor a decoração do apartamento e vão contando e revelando diferentes aspectos do passado. A cenografia do filme procura fugir dos recursos costumeiros de embelezamento e decoração de um ambiente enfatizando o caos de uma casa sem organização extrema e nos inserindo em uma realidade que condiz com o aspecto mundano de nossas vidas. Os objetos que cercam o protagonista e os ambientes do apartamento ocupados por ele vão relembrando seu passado. Enquanto Júnior sofre metamorfoses, é possível que o espectador se aperceba da desordem mental dele, Contudo, suas metamorfoses sentimentais se correlacionam à estética impressionista na qual somos sempre colocados em confronto com algo que fica no ar, uma subjetividade que está ali, mas não suficientemente “visível”. No caso é uma desordem mental que não escancara suas portas. O ambiente ao redor dele, contudo, tem uma dinâmica oposta, que poder-se-ia chamar expressionista, se transformando fisicamente, aos poucos, de uma ambiente classe média comum e contemporâneo, para um ambiente tenso, opressor e sobrenatural que evoca um passado de 30 anos atrás para as personagens. O pai de Júnior passa a ser cada vez mais oprimido por um ambiente que ele considerava não mais existir. É aqui que Bachelard (1979) traz contribuições significativas para a construção de reflexões sobre o poder estético dos espaços de um lar transformando-se no principal referencial teórico do artigo. Em sua obra A Poética do Espaço, Bachelard reflete sobre o potencial poético e criativo dos espaços domésticos. A partir desta reflexão inicial, farei uma analogia desses usos e possibilidades descritos por Bachelard com os usos dos espaços e objetos dos ambientes cenográficos do filme. Além de Bachelard, referenciais teóricos de pesquisadores da história e estética do cinema de vanguarda (principalmente dos cinemas impressionista e expressionista) e da análise fílmica serão usados como suporte como Mascarello (2009), Ismail Xavier (2005), Metz (1972), Wollen (1984) a fim de analisar a poética do espaço em Quando eu era vivo; filme que começa como um drama familiar e termina como um filme de horror graças à mudança de atmosfera ocasionada pela dinâmica espacial dos objetos.
Bibliografia

BACHELARD, Gaston, A Poética do Espaço. Tradução de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal In.: Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1979.



MASCARELLO, Fernando. História do Cinema Mundial. 5ª Ed. Coleção Campo Imagético, Papirus Editora, Campinas, 2009.



METZ, Christian: “A Significação no Cinema” Ed. Perspectiva, São Paulo, 1972.



ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.



ROSENFELD, Anatol: “Cinema Arte & Indústria.” Ed. Perspectiva, São Paulo, 2002



WOLLEN, Peter: “Signos e Significação no Cinema.” Livros Horizonte, Ltda, Lisboa, 1984



XAVIER, Ismail.O Discurso Cinematográfico - A Opacidade e a Transparência - 3ª Ed. São Paulo, Paz e Terra, 2005.