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  Título
Preservar, restaurar, difundir: de volta às telas, o caso de KEAN
Autor
Vivian Malusá
Resumo Expandido
De diferentes modos, na história da preservação audiovisual, a exibição de filmes, se não impulsionou a criação de um arquivo de filmes ou cinemateca, esteve atrelada ao seu percurso. Assim, a difusão cinematográfica feita por cinematecas é uma de suas principais missões. Profissionais e entidades da área entendem que a missão de uma cinemateca seria de adquirir (enriquecer a coleção), preservar (compreendidos os processos de catalogação, conservação e restauração) e dar acesso a suas coleções. Segundo Carlos Roberto de Souza, autor da tese “A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil” (2009, p.06): “A preservação engloba a prospecção e a coleta, a conservação, a duplicação, a restauração, a reconstrução (quando necessária), a recriação de condições de apresentação, e a pesquisa e reunião de informações para realizar bem todas essas atividades. Essas ações, consideradas individualmente, são possíveis e necessárias, mas não suficientes para o objetivo de se atingir a preservação”.

A maneira mais tradicionalmente conhecida de se recriar as condições de apresentação de uma obra cinematográfica se configura na programação de uma cinemateca e na exibição de filmes, através de ciclos, mostras, festivais, exibições especiais, etc. O acesso ativo é qualquer forma de difusão da coleção que parta do próprio arquivo, seja periodicamente (semanal, mensal, etc.) ou esporadicamente – como no caso de mostras extraordinárias ou exibições únicas. Através desta atividade é possível cumprir parte do propósito da preservação, com ela o arquivo faz chegar até o público sua própria coleção.

Em um momento da história em que a exibição digital nas salas de cinema vem substituindo com muita rapidez a projeção de filmes em película, festivais e mostras de filmes de arquivo, promovidos pelas cinematecas, buscam manter e valorizar o trabalho relacionado à preservação fílmica e o acesso aos filmes da forma mais próxima a que foram concebidos, o que muitas vezes está relacionado à apresentação de seus filmes restaurados.

Neste contexto, estes eventos se mostram como grandes oportunidades para o arquivo trabalhar a ação curatorial de forma ainda mais contundente, olhando para sua coleção, percebendo necessidades maiores de conservação e de restauração, descobrindo e divulgando pérolas, investigando e tomando decisões.

Para além do trabalho interno dessas instituições, quando a restauração (ou uma nova tiragem, remasterização, etc) de um determinado filme é concluída, uma nova fase, de divulgação da obra restaurada propriamente dita, se inicia. Neste ponto, a troca e contatos interinstitucionais são bastante importantes, ou mesmo essenciais para dar vida “efetiva” a essas obras, colocando-as de volta nas telas e estimulando debates sobre elas.



Esta comunicação apresentará um estudo de caso de um filme restaurado que volta às telas e entra em um circuito de exibição específico dos festivais e mostras de filmes de arquivo. Irei abordar o caso de cinematecas europeias, pela proximidade física das instituições, o que facilita também o contato entre elas e as trocas, sejam através da projeção dos filmes ou de debates com a presença da equipe responsável por tal restauração.

O filme em questão é Kean ou Désordre et génie (France, Alexandre Volkoff, 1923), da coleção Albatroz, da Cinemateca Francesa, restaurada por esta instituição em colaboração com a Cinemateca de Praga (Národní filmový archiv) e com o apoio do CNC (Centre National de la Cinématographie et de l’Image animée). O lançamento da cópia restaurada aconteceu no festival Toute la Mémoire du Monde, edição de 2017, após uma primeira exibição na Cinemateca de Praga, ainda em 2016. Foi também projetada no Festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, 2017.
Bibliografia

Catalogue des restaurations et tirages - La Cinémathèque française. Disponível em: , acesso em 12 de maio de 2018.

DI CHIARA, Francesco e RE, Valentina. Film Festival/Film History: The Impact of Film Festivals on Cinema Historiography. Il cinema ritrovato and beyond. Cinémas : revue d'études cinématographiques, disponível em http://www.erudit.org/revue/cine/2011/v21/n2-3/1005587ar.html, acesso em 12 set. 2014.

HABIB, André e MARIE, Michel (org.). : L'avenir de la mémoire – Patrimoine, Restauration, Réemploi Cinématographiques. Villeneuve d'Ascq, Presses Universitaires du Septentrion, 2013.

RUIVO, Céline – Diretora do acervo fílmico da Cinémathèque française. Entrevista concedida a Vivian Malusá. Paris, 21 de jul. 2016.

USAI, Paolo Cherchi, FRANCIS, David, HORWATH, Alexander, LOEBENSTEIN, Michael (org). Film curatorship: archives, museums and the digital marketplace. Viena, Synema, 2008.