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  Título
O cabelo afro e sua re-existência nos filmes Kbela e Deixa na Régua
Autor
Marcell Carrasco David
Resumo Expandido
O tema desta pesquisa de Mestrado gira em torno da construção de representações do cabelo crespo nos filmes Kbela (2015), da diretora Yasmin Thayná e Deixa na Régua (2017), do diretor Emílio Domingos, ambos realizados no Rio de Janeiro. Além de uma análise a novos padrões estéticos, uma vez que acontece um movimento formado por diversos setores que identificam os cabelos afros como condutores de outras identidades.

Políticas de ações afirmativas são fundamentais para reorganizar, em longo prazo, as estruturas de poder, porém não dão conta de toda a urgência de mudanças sociais práticas. Considerando-se essa iminência, os jovens negros periféricos se organizam para criar outros modelos de representações e de ocupação da cidade, a fim de realmente disputar e renovar os imaginários geográfico, social, estético e político.

Mas falar sobre a aceitação do cabelo afro não é novidade, ainda que hoje seja uma forma de manifestação e afirmação das culturas afro brasileiras. A antropóloga Lélia Gonzalez, identifica outras formas de resistência importantes, que antecedem transformações que vemos atualmente. Afinal, segundo Gonzalez, os negros não constituem um bloco monolítico, de características rígidas e imutáveis. Dentro desta pluralidade, existiram diversas estratégias de resistência ao sistema escravocrata, como os quilombos e as religiões de matriz africana. (GONZALEZ, 1980)

Seguindo essa perspectiva apontada por Lélia, o objetivo dessa comunicação é analisar os dois filmes, realizados por dois diretores e autores negros que através de suas próprias linguagens lograram construir novos processos narrativos, e assim começam a interferir no processo de difusão de uma nova construção estética, que por fim evidencia a necessidade de outras representações culturais, sociais, intelectuais e políticas. A ideia é entender esses filmes como ferramentas de resistência para os negros e negras, moradores do subúrbio e favelas do Rio de Janeiro e de outros guetos do mundo.

Busco entender estas duas obras enquanto fenômenos estéticos e político afro-diaspóricos. Já que ambos trazem questões relativas a processos enfrentados por jovens negros e seus abismos criados pelo racismo. No curta-metragem Kbela, é possível perceber que, além de um filme, também se trata de uma performance sobre o processo enfrentado pela maioria das meninas negras, de rejeição ao próprio cabelo. Para Yasmin Thayná, jovem cineasta, nascida na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, o filme se trata de uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra.

Já no filme Deixa na Régua, o diretor Emílio Domingos, que atua com cultura urbana, através de pesquisas sobre funk, samba e hip hop, consegue trazer para o espectador o dia a dia de algumas barbearias das favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro. O filme é feito a partir do olhar e de depoimentos dos jovens que as frequentam, e mostra como esses estabelecimentos se tornam espaços de troca e de debates sobre diversos assuntos relacionados a identidade negra e periférica.

Andar pelas ruas do Rio de Janeiro, com um cabelo black power, causa sensações distintas e reações, muitas vezes, negativas. Por isso, a ideia deste trabalho também busca entender como a utilização dessa estética faz parte de uma performance necessária na cidade. A performance como ideia de fuga para estigmas criados sobre o corpo negro e a desconstrução dessa ideia, que deve ser entendida como a tentativa de reorganizar, de certa maneira, o pensamento ocidental. (DERRIDA, 2004)

Portanto, as observações realizadas nos dois filmes irão levar em consideração os atravessamentos relativos a classe, raça, gênero e sexualidade. Enquanto as leituras buscarão compreender a multiplicidades desses corpos negros, propondo um exercício de alteridade para o processo de pesquisa e para o meu próprio corpo, propondo a construção de novas subjetividades e reconhecendo que outras identidades vão se desenhando ao mesmo tempo em que novos territórios também vão tomando corpo.
Bibliografia

DERRIDA, Jacques. “O que é a desconstrução?”. Le Monde - suplemento especial, 2004.

EVARISTO, Conceição. “Becos da memória”. Belo Horizonte: Mazza, 2006.

GOFFMAN, Erving. “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”. Petrópolis: Vozes, 1985.

HALL, Stuart. “Cultura e Representação”. Rio de Janeiro: Apicuri, 2016.

HOOKS, Bell. “Intelectuais Negras”. Estudos feministas, Florianópolis, v. 3, n.2, p. 464-478, ago./dez. 2005.

MBEMBE, Achille. "Necropolítica: Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte." Rio de Janeiro: n-1 edições, 2018.

ROLNIK, Suely. “Cartografia Sentimental: transformação contemporâneas do desejo”. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2006.

SANTOS, Milton. “Por uma geografia nova”. Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 1978.

CARDOSO P. C. “Amefricanizando o feminismo: o pensamento de Lélia Gonzalez”. Bahia, UNEB – Universidade do Estado da Bahia: 2014.

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