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  Título
Dispositivo, ambiente web e estrutura narrativa em Amizade Desfeita
Autor
Jamer Guterres de Mello
Coautor
Juliana Monteiro
Resumo Expandido
O conceito de dispositivo cinematográfico aparece inicialmente inserido na teoria estruturalista francesa com Jean-Louis Baudry e Christian Metz, em meados dos anos 1970, a fim de determinar quais os efeitos experimentados pelo espectador dentro do espaço do cinema (PARENTE, 2007). Desconsiderando a organização discursiva do filme, a tônica da teoria do dispositivo de Baudry baseia-se nos elementos físicos e espaciais do cinema como ferramenta inconsciente de espelhamento e, por conseguinte, de identificação. Diferentemente de Baudry, para Christian Metz o dispositivo é, além do aparelho de base e seus efeitos, “todo o processo de produção e circulação das imagens onde se atuam os códigos internalizados por todos” (XAVIER, 2005, p. 176). Metz se dedica a examinar a conexão entre cinema e linguagem e a esboçar um projeto de semiologia do cinema. Para o teórico, a linguagem não atua como mero acessório de percepção da realidade e sim como “chave” para a compreensão da mente, das práticas sociais e artísticas, como elemento formativo da existência humana em geral (STAM, 2003).

No entanto, pouco tempo depois do apogeu da semiologia no cinema, a teoria do dispositivo foi revisitada e duramente revisada por teóricos como David Bordwell e Noel Carroll, substituindo a psicanálise pela psicologia cognitiva, sugerindo um modelo que enfatiza que há uma atividade racional pela qual o espectador conduz operações de leitura como prática de solução de problemas. Ou seja, o espectador é quem constrói o filme ao tentar compreendê-lo (XAVIER, 2005).

Apesar das muitas discordâncias entre as duas teorias, ambas carregam um ponto importante em comum: dedicam-se à análise do cinema em sua configuração clássica (STAM, 2003). O cinema vem mudando enquanto dispositivo e como forma discursiva, se espalhando sobre novos espaços de exibição. Segundo Lipovetsky e Serroy (2009), os novos dispositivos tecnológicos audiovisuais modificaram o emprego da tela do cinema, permitindo que esta se proliferasse sob dimensões menores e nômades. Portanto, a ideia aqui é explorar as possibilidades narrativas no âmbito do cinema, em um alargamento de suas fronteiras a partir do ambiente do computador.

É o caso do objeto deste trabalho: o filme Amizade Desfeita (Unfriended, Levan Gabriadze, 2014). Produzido de forma independente e voltado ao público de consumidores de produtos audiovisuais via web, o longa conta a história de seis jovens que se encontram em um bate-papo no Skype e são atormentados por um usuário desconhecido que se revela ser o fantasma de uma ex-colega de classe, morta um ano antes. Todas as ações são gravadas pela tela de um notebook. A chamada inicial da videoconferência, a aparição da pessoa desconhecida, as conversas paralelas em redes sociais, vídeos antigos gravados via webcam e as mudanças de janelas são elementos que mantêm o espectador imerso no ambiente digital.

Para Lobato (2012), a janela que o ambiente digital proporciona pode ser considerada como um novo tipo de arquitetura de distribuição para divulgação do cinema, adquirindo novas nuances de significado em contextos diferentes. Entendendo o computador pessoal como um destes dispositivos imagéticos emergentes, com peculiaridades que o afastam e o aproximam do dispositivo original do cinema, não sendo apenas vetor de conteúdo audiovisual, mas, principalmente, produtor do mesmo, é necessário considerar os códigos que se estabelecem nesse meio. Para tanto, este trabalho pretende analisar a estrutura narrativa do filme Amizade Desfeita e identificar as mutações que um novo espaço de produção e dispersão podem impor ao sistema formal do filme e assim perceber as novidades que essa forma de exibição assume frente às convenções clássicas, de modo comparativo. Propõe-se um confronto entre a narrativa adotada em Amizade Desfeita e outros tipos de narrativa do cinema, sugerindo contrastes, analogias e aproximações no interior do conjunto de pressupostos teóricos sobre o sistema formal do filme.
Bibliografia

BAUDRY, Jean-Louis. Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base. In: XAVIER, Ismail (Org.). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal, Embrafilme, 1983.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A Tela Global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna. Porto Alegre: Sulina, 2009.

LOBATO, Ramon. Shadow economies of cinema. Londres: Palgrave Macmillan, 2012.

MURRAY, Janet. Hamlet no Holodeck. SãoPaulo: Unesp, 2003.

PARENTE, André. Cinema em trânsito: do dispositivo cinema ao cinema do dispositivo. In: Estéticas do Digital: cinema e tecnologia. Covilhã: Labcom, 2007.

STAM. Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2003.

XAVIER, Ismail. O Discurso cinematográfico: A opacidade e a transparência. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2005.