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  Título
Documentário, Autobiografia e a contingência da morte: Silverlake Life
Autor
Gabriel Kitofi Tonelo
Resumo Expandido
Veiculado em 1993 na rede pública de televisão PBS, Silverlake Life: the view from here (Tom Joslin e Peter Friedman, 1993) detém um lugar importante na filmografia documentária estadunidense da década de 1990. A partir de uma narrativa autobiográfica, o filme tocou de maneira pungente um dos principais temas concernentes ao debate público de sua conjuntura: a escalada da epidemia da AIDS. Ao detectar o agravamento da sua condição, o cineasta-autobiógrafo Tom Joslin decide filmar o desenvolvimento dos sintomas da AIDS em seu corpo por meses a fio, em meio à sua atmosfera doméstica e junto de seu companheiro, Mark Massi, também diagnosticado com a doença.

O ápice narrativo de Silverlake Life consiste na morte de Joslin. A tomada do corpo inerte do cineasta-autobiógrafo, revelado por meio da câmera sustentada por seu companheiro, momentos após o ocorrido, com as mãos trêmulas e a voz embargada, é um importante momento da história do documentário autobiográfico. Citando-o, o autor Jim Lane sustenta que o filme, a partir de sua contundência narrativa, influenciou as reflexões acerca do papel da autobiografia e do documentário naquele momento (LANE, 2002, p.3). Por sua vez, a autora Barbara Abrash indica a potência da autobiografia como abordagem de um tema socialmente urgente a partir da “face humana” que emerge da empreitada do cineasta-autobiógrafo de fazer-se ver vivendo e morrendo diante da câmera (ABRASH, 2007, p.9).

Apesar de sua importância, Silverlake Life foi pouco explorado nos estudos nacionais sobre documentários autobiográficos. Nesse sentido, o intuito desta apresentação é o de expor aspectos narrativos e estilísticos que singularizam a empreitada do filme no que concerne os cruzamentos possíveis entre documentário e autobiografia.

Daremos ênfase à análise da temporalidade narrativa de Silverlake Life, apontando-o como principal responsável de sua potência fílmico-autobiográfica. O caminho de investigação que deve ser exposto é o de que a relação entre tempo e autobiografia no filme é contundente na medida em que lida, em níveis distintos, com a expectativa do cineasta-autobiógrafo em relação à sua própria morte. Se, por um lado, a construção temporal de Silverlake Life evoca o domínio vérité ao construir-se como narrativa calcada no “tempo presente” do cineasta-autobiógrafo e de seu cotidiano, há, por outro, uma projeção temporal para a “posterioridade” que deve ser investigada. A força propulsora da empreitada autobiográfica de Tom Joslin – e que se faz visível ao longo do filme – consiste na cristalização da experiência vivida diante da circunstância particular do estágio terminal de sua doença e que tem como alvo um “futuro indefinido”, que seria alcançado e materializado apenas após a morte do cineasta-autobiógrafo. Nesse sentido, devemos apontar que a narrativa de Silverlake Life é alicerçada temporalmente em uma espécie de “presente-futuro”, que flexiona de maneira singular o ato autobiográfico que presenciamos. Existe um sempre presente espectro temporal, de expectativa à morte e à posterioridade, que se transborda na circunstância das tomadas fílmicas e que projeta-se na montagem póstuma de sua narrativa, a partir das indicações (um “roteiro”) deixado antes da morte de Tom Joslin.

Finalmente, exporemos a relação entre o filme e a História do documentário autobiográfico. Silverlake Life leva as reivindicações referenciais herdadas pelo cinema direto a patamares pouco explorados autobiograficamente. Devemos frisar que, diferentemente da produção autobiográfica construída no entendimento de uma era “pós-vérité” (RENOV, 2004, p.171) e no afastamento das propriedades referenciais do cinema documentário, Silverlake Life confirma o adensamento das preocupações conceituais do cinema direto em uma perspectiva autobiográfica que, conforme as palavras de Susanna Egan a respeito do filme e sobre as quais devemos refletir em nossa apresentação, “impede qualquer simples evasão pós-estruturalista” (EGAN, 1994, p. 609).
Bibliografia

ABRASH, Barbara. “The View from the top: P.O.V. Leaders on the Struggle to Create Truly Public Media”. Center for Social Media, November 2007.



EGAN, Susanna. “Encounters in Camera: Autobiography as Interaction”. Modern Fiction Studies 40.3. p. 593-618, 1994



GERNALZICK, Nadja. “Lives and Deaths in Photographic Tense: Temporality and Filmic Automediality After the Indexical Turn”. a/b: Auto/Biography Studies, 29:2, p. 225-248. 2014.





GUSDORF, Georges. Conditions and Limits of Autobiography. In: OLNEY, James (org.). Autobiography – Essays Theoretical and Critical. Princeton: Princeton University Press, 1980. p. 28-49.



LANE, Jim. The Autobiographical Documentary in America. Madison: The University of Winsconsin Press, 2002



NICHOLS, Bill. Blurred Boundaries: Questions of Meaning in Contemporary Culture. Indianapolis: Indiana University Press, 1994.



RENOV, Michael. The Subject of Documentary. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004