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  Título
Narrativas e Representações sobre fluxos migratórios: o caso FESPACO.
Autor
Maíra Zenun
Resumo Expandido
A fim de compreender certos eventos migratórios que ocorreram ao longo da história recente do continente africano, a antropóloga Goli Guerreiro (2009, 2010) identifica três importantes movimentos diaspóricos distintos que abalaram drasticamente o povo negro em África: um, que ocorreu pela via do tráfico negreiro perpetrado pelo colonialismo europeu, quando, entre os séculos XV e XIX, grandes contingentes populacionais africanos foram sequestrados e violentamente arrancados de suas casas, obrigados a migrar para fora de África, rumo a serviços obrigatórios e em destinos totalmente desconhecidos; o segundo, em função de uma série de deslocamentos voluntários ocorridos ao longo do século XX, impulsionados pelas péssimas condições de vida a que foram submetidas as pessoas descendentes de indivíduos escravizados, no pós abolição, que passaram a migrar de países periféricos (como Jamaica, Porto Rico, Benin, Cabo Verde, Angola etc.) (Guerreiro, 2009) para grandes metrópoles ocidentais (como Londres, Nova York, Paris, Lisboa, São Paulo etc.) (Guerreiro, 2009); e o terceiro e último grande movimento, provocado pela circulação, entre diferentes territórios diaspóricos negros, de um mesmo conjunto (bastante variado) de signos/símbolos, em função da larga rede techno eletrônica que existe atualmente, alimentada por filmes, músicas, cabelos, slogans, gestos, modas, bandeiras, ritmos, ícones, ideologias etc., e que coloca em conexão cidades como Salvador, Kingston, Havana, New York, New Orleans, Londres, Lisboa, Dakar, Luanda, entre outras (Guerreiro, 2009). De fato, e não por acaso, cada um desses ciclos diaspóricos identificado por Goli Guerreiro foi responsável também pela intensificação do ciclo seguinte, e mais. Como a escravidão colonial e o neo colonialismo, por exemplo, que acentuaram outro processo tão severo quanto, ligado aos fluxos internos em África, que já existiam (De Medeiros In El Fasi, 2010), mas que se intensificaram em decorrência das fronteiras inventadas e das crises econômicas criadas pelo sistema (neo) colonial capitalista patriarcal (Reis, 2011). A verdade é que, mesmo com o fim do tráfico escravagista, estes fluxos seguintes – intra-continentais e extra-continentais – não desaceleraram. Pelo contrário, misturaram-se uns aos outros, transformando-se em importante fenômeno social, experimentado pelas sociedades contemporâneas. Por conta deste impacto tão profundo na vida das pessoas negras, a repercussão destas dinâmicas provocadas por tantas migrações forçadas, em conflito com tantas fronteiras inventadas pelo neo colonialismo, tem sido constantemente escolhida/acolhida como tema e objeto de narrativa e representação entre os filmes exibidos e premiados pelo FESPACO – Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Ouagadougou –, maior e mais antiga festa do cinema em África, que acontece em Ouagadougou, Burkina Faso, desde 1969, a fim de estimular a promoção e discussão de filmes negros, realizados em todo o continente africano e em seus territórios diaspóricos, por pessoas africanas e afrodiaspóricas. Neste sentido, para esta comunicação oral, proponho apresentar um levantamento a respeito dos filmes premiados ao longo do FESPACO, em sua principal categoria – o Étalon de Yennenga –, que tratam da questão das migrações (forçadas) em relação as fronteiras que foram sendo inventadas ao longo dos processos identificados por Goli Guerreiro (2009). Para tanto, proponho identificar os conceitos de migração e fronteira atribuídos ao continente-África, na intenção de traçar um breve apontamento sobre como o cinema negro africano apresentado em tal festival tem tratado e retratado estes fluxos, que envolvem a formulação de símbolos, ícones, modos, tradições e práticas culturais relacionadas ao próprio mundo negro-africano.
Bibliografia

Cursou Ciências Sociais/UFRJ. Entre 2005-2007, fez o Mestrado em Sociologia/UnB, e defendeu a dissertação “Os intelectuais na terra de Vera Cruz: cinema, identidade e modernidade”. Em 2014, foi aprovada pelo Departamento de Sociologia/UFG, para cursar o doutorado, com um projeto de pesquisa sobre cinema negro africano, a partir de um estudo de caso sobre o FESPACO. Participou como investigadora/produtora de imagens do TRANSE/UnB, e desde 2014 colabora como pesquisadora para o FICINE.