Voltar para a lista
 
  Título
Cinema e História: análise dos filmes iniciais de Scorsese (1967/1973)
Autor
Caroline Liamare Magnaguagno Pereira
Resumo Expandido
A pesquisa visa problematizar a relação dialética entre Cinema e História, levantando a hipótese de que o filme é, ao mesmo tempo, um produto de sua conjuntura e um produtor de memória histórica. Os objetivos visam depurar o contexto de produção da obra e a conjuntura histórica e estética que a permeiam. A análise teórico-metodológica se valerá das reflexões e dos encaminhamentos práticos a respeito da contribuição do Cinema para a História, levantados por Marc Ferro, Michèle Lagny, Marcos Napolitano e Pierre Sorlin.

Nosso foco recaíra sobre o cinema da Nova Hollywood. Onde mudanças da indústria cinematográfica e da sociedade americana tiveram um impacto estético nos filmes produzidos pro Hollywood. O que acontece nos Estados Unidos do final da década de 1960 e início da década de 1970 não é propriamente uma escola, e nem mesmo pode ser classificado como um movimento vanguardista. Todavia, existem ali algumas características conjunturais que proporcionaram um rompimento com o modelo clássico-industrial de se fazer cinema em Hollywood.

Uma geração de jovens cineastas, advinda das universidades e influenciados pela cinematografia europeia do pós-guerra fora beneficiada por mudanças nas estruturas dos estúdios, pela crise financeira pela qual estes passavam e pela extinção do código de produção, trazendo a tona novas temáticas e grandes mudanças estéticas ao cinema americano.

Nossos objetos desta pesquisa são as três primeiras obras cinematográficas de longas-metragens ficcionais do diretor estadunidense Martin Scorsese: Quem bate à minha porta? (Who’s that knocking at my door), de 1967; Sexy e Marginal (Boxcar Bertha), de 1972 e Caminhos Perigosos (Mean Streets), de 1973. O primeiro e terceiro filmes supracitados constituem uma mesma linha temática. Tratam da percepção do cineasta sobre a sua geração e seu meio. Ambos os filmes contam as histórias de jovens nova iorquinos, do bairro italiano de Little Italy, região na qual nasceu e cresceu o cineasta.

Quem bate à minha porta? É a história de J.R., um jovem ítalo-americano desempregado, que passa seus dias na companhia de seus amigos do bairro. Ele conhece The Girl, uma jovem sofisticada que personifica toda uma geração de mulheres urbanas dos anos 1960: mora sozinha, é solteira, trabalha e gosta de expor suas opiniões. A trama se desenvolve através da desarmonia entre as duas personagens e os lugares que ocupam na sociedade americana da época. J.R., que teve uma criação católica e moralista, sofre para aceitar a personalidade e as experiências vividas por The Girl.

Situando-se no mesmo ambiente Caminhos Perigosos traz a tona novamente as mudanças que permeiam a geração do final da década de 1960 e início da década de 1970, contudo desta vez a personagem desencaixada vem do interior do próprio grupo. Charlie, personagem principal da trama, tem posições ambivalentes quanto aos padrões de comportamento que são impostos por seu grupo, tais como o racismo e a violência, por exemplo. O interesse romântico de Charlie é sua vizinha Teresa, que sofre de epilepsia, e por isso não é considerada como uma mulher apropriada para ele por seu tio e patrono. Charlie sofre com isso e seus conflitos internos vêm desse desconforto que se encontra entre o papel social que deve cumprir e seus questionamentos e desejos individuais.

O segundo filme do diretor pode ser considerado um ponto fora da curva na perspectiva temática, pois se passa fora da cidade de Nova York, e fora do período contemporâneo a sua filmagem. É uma história de outsiders, marginalizados sociais, durante a Grande Depressão. Um grupo de ladrões, que rouba uma companhia de trem para sobreviver. Mas mesmo tratando de outro período histórico, o lugar de fala emana do momento de sua produção. Ele é portanto, também, um filme sobre a mesma geração de Scorsese.

Juntos os três filmes formam um arco da passagem da década de 1960 para a década 1970. Momento marcado por bruscas mudanças sociais, econômicas e políticas nos EUA.
Bibliografia

FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

LAGNY, Michèle. O cinema como fonte da história. In: NÓVOA, Jorge; FRESSATO, Soleni Biscouto; FEIGELSON, Kristian (Orgs.). Cinematógrado: um olhar sobre a História. Salvador: EdUFBA; São Paulo: UNESP, 2009.

MORETTIN. Eduardo. O cinema como fonte histórica na obra de Marc Ferro. In: CAPELATO, Maria Helena; MORETTIN, Eduardo; NAPOLITANO, Marcos; SALIB, Elia Thomé. História e cinema: Dimensões históricas do audiovisual. São Paulo, 2007.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In: PINSK, Carla B. (Org.) Fontes Históricas. Editora Contexto: São Paulo, 2005.

SCHATZ, Thomas. O gênio do sistema. A era dos estúdios em Hollywood. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

SKLAR. Robert. História Social do Cinema Americano. Editora Cultrix: São Paulo, 1975.

SORLIN, Pierre. Historical Films as Tools for Historians. Film & History: An Interdisciplinary Journal of Film and Television Studies, Volume 18, Number 1, February 1988.